segunda-feira, 3 de outubro de 2016

primeira segunda-feira de outubro

hoje dói-me tudo, hoje choro a despedida de algo que terminei em mim. matei em mim. rasgo de mim. em simultâneo, assusta-me a frieza com que me sinto lidar com o que mirrou cá dentro. a minha postura hoje faz-me lembrar o rosto do meu pai quando estamos num funeral de alguém querido. ele chora por dentro, o semblante fica carregado, mas não se desfaz num pranto inconsolável. já não me sentia pedra, fria e dura, há muito tempo. já não me sentia esta mulher irascível há muito tempo. já não permitia que os meus instintos mais básicos me comandassem há muito tempo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O que muda com os 30

SJP
Os trinta são os novos vinte e continuam a perguntar-me onde estudo... mas um ano depois de ter entrado nesta casa, já posso dar-vos um lamiré do que realmente muda:

papos nos olhos | Noites mal dormidas já deixam rasto no rosto. Os olhos inchados não enganam ninguém e nem o melhor dos cremes consegue apagar os vestígios da falta de sono. Sinto-me um peixinho destes de cada uma das vezes em que me armo em crédula e espero que o creme para o contorno ocular faça milagres (ajuda muito, btw).

pele sensível | Sair à noite e estar exposta a ambientes quentes e com fumo funciona para mim como andar de metro: a minha pele simplesmente não gosta. As impurezas aumentam os níveis de oleosidade e por isso, volta e meia sou obrigada a fazer máscaras de argila, caso não queira parecer o abdominal de um gajo da Casa dos Segredos. Além disso, tenho medo de pontos negros e afins.

dores nos pés | Não há cá noitadas inteiras dançando alegremente sobre 15 centímetros de saltos agulha. Não há dias de compras em cima de sandálias altíssimas. Não há pão p'a malucos. É uma chatice ter que pensar constantemente em aliar conforto à elegância, mas como consultora de imagem até me ficaria mal dizer que não gosto do desafio, certo?

retenção de líquidos e inchaço | Uma pessoa anda um bocadinho a pé, vai a ver e já não tem tornozelos. Um diazito sentada à secretária e eles insuflam, qual Kim Kardashian durante a primeira gravidez. São as tiras das sandálias que apertam, as sabrinas que vincam, não se aguenta.

gordura muda de sítio | Surpreendente. Antigamente o foco das gorduras eram as minhas ancas, o meu rabo e as pernas. Agora fica ali tudo condensado na barriguinha, podendo até criar pneu. Fico louca.

aceitação | Já sabemos quem somos, que características fazem de nós este ser admirável. Pessoalmente, já uso peças que mostram as pernas que não são como as da Naomi - e então? Já percebi que as maminhas menos grandes também são o máximo e abdico do uso de soutien de vez em quando, mesmo para sair de casa (dependendo do que escolhi para vestir, claro). Há vestidos que funcionam muitíssimo melhor sem quase nada por baixo, pareço sempre mais magra e o conforto é imensurável.

já não estás para merdas porque sabes o que não queres | Ele não é aquilo que nós queremos? Não há cá tretas, fiofós nem gaitinhas - baza! Não há desculpas para desleixos, indecisões ou tangas pseudo-traumáticas. Ou quer ou não quer. Ou é ou não é. Cá merdas...

tens cuidados contigo que não pensavas ter | Pelo sim, pelo não, apostamos nuns tratamentos para o cabelo que vem aí o Inverno. Bebem-se litros de chá de cavalinha para ajudar na treta da retenção de líquidos, marcam-se drenagens linfáticas e ainda uma sessão de osteopatia que não posso com as dores nas costas. 

divertes-te com coisas nada divertidas | Arrumar a casa, cozinhar um monte de coisas "só para depois não ter que pensar muito no que vou fazer para o jantar... assim os brócolos já estão cozidos!", ficar no sofá enrolada numa manta a ler posts como este.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

do arrependimento e de como dói

Sempre preferi arrepender-me do que faço para não ficar com arrependimentos quanto ao que não fiz. A verdade é que raramente me arrependo de algo, porque acredito que se decido fazer alguma coisa, isso deve-se à existência de um motivo. Há sempre uma razão que justifica e valida o meu comportamento ou a minha atitude. Desta vez foi diferente: nem o motivo me livrou do peso que só quem se arrepende pode sentir.

Valeu-me apenas ter um Deus que me deu como Amiga alguém muito especial, que me chamou até à superfície da razão, que com franqueza pôs as cartas na mesa e que por me conhecer por dentro tão bem como eu me conheço, me fez ver. Fiquei à nora, porque um 6 também pode ser um 9 se for visto ao contrário. E ela ajudou-me a ver ao contrário. Consegui ver-me do lado de fora e senti as minhas falhas mais profundas. Doeu. Foi como se me abrissem a sangue frio.

E depois de ter perdido tanto este ano, senti o pavor de não querer perder também quem está vivo. Então lembrei-me das palavras da Mana: "Não precisas de ser essa pessoa para o mundo inteiro. Há quem não mereça essa versão."

Hoje sinto-me grata por ter quem considere não desistir de mim mesmo depois da manifestação da minha agressividade. E mais grata ainda por ter entendido que não posso ser sempre a dona da razão. Que ser tão intransigente e radical só por defesa, só por medo de me magoar, só porque fugir é mais fácil ou confortável, não me trouxe segurança. Que esta frieza não faz sentido sempre.
E aos poucos, tenho tentado perder o medo de ser a miúda doce para aqueles que amo. Tenho tentado disciplinar-me para ver sempre, sempre o lado deles. Tenho tentado confiar um bocadinho mais. Espero conseguir mantê-los aqui. Espero mesmo.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

calo o gemido

Olho à volta e não sinto que faça parte disto. Deste rebanho. Parecem ovelhas, parecemos ovelhas, vamos todos na mesma direcção, apesar dos diferentes destinos. Vamos todos de pé, a carruagem cheia e os olhares tão vazios. Vão todos sozinhos, vamos todos sozinhos, apesar de estarmos no meio de uma multidão. Apesar de estarmos rodeados de gente sozinha. 
A maioria vai de smartphone nas mãos, que é mais fácil comunicar através de um écran do que sorrir para quem está ao nosso lado. Auscultadores enfiados nos ouvidos e assim ninguém mete conversa. Aquele ali pode estar sentado ao lado da mulher da vida dele, mas é no tinder que procura o match perfeito. 
Abrem-se as portas. Saem em manada. Saímos em manada. Seguimos pelo mesmo corredor atafulhado de gente, atafulhado de pessoas sozinhas que seguem num aglomerado populacional que nem permite ver a cor do chão. 
Saio do metro e tenho que parar nas escadas. Já vejo o céu daqui. Preciso de respirar. Não era aqui que queria estar. Não foi este o quadro que pintei para o meu futuro. A minha vida adulta não era desta cor nem tinha este aspecto. Será que tenho que passar por aqui para lá chegar ou estou a desviar-me completamente da rota? Ainda não são dez da manhã e em vez de estar no epicentro da confusão deveria estar a arrumar a mesa do pequeno-almoço que preparei de véspera para os miúdos. 
Tento esconder estas lágrimas por detrás dos óculos de sol, saco um cigarro que fumo rua acima. Eu não quero ser um deles. Calo o gemido, lembro-me da força que guardo dentro de mim e avanço. Os passos pesam-me. Respiro fundo e entro. Para quê?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

F É R I A S


Este blog está oficialmente de férias! Lady Lamp volta em breve, com mais dissertações, disparates, muitas dicas de #anarendallstylist, prosa poética, opiniões, episódios aleatórios, dramas existenciais e o bronze em dia, claro! Até já!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

As pessoas não gostam de honestidade.

Beyoncé
As pessoas não gostam de honestidade, dizia um amigo. As pessoas não gostam da coerência de quem age em concordância com o que sente ou pensa. As pessoas preferem o cinismo. É-lhes mais confortável a hipocrisia. Quem diz o que pensa, quem manifesta desagrado, é louco. 

Não sou dessas que dizem o que lhes apetece sem ponta de educação e de respeito pelo outro - essa é a versão enviesada, foleira e barata da honestidade. Erradamente, consideram-se honestos aqueles que deitam cá para fora toda e qualquer parvoíce que lhes passa pela mente, sem filtros, sem cuidado para não ferir susceptibilidades alheias e sem noção dos limites e das fronteiras do espaço privado de cada um. Não é com essa conduta que me identifico nem é a ela que me refiro. 

Quando o assunto é honestidade, falo da natural frontalidade que sinto como obrigatória em qualquer relação. Seja no campo profissional ou no meu círculo de amigos, tento sempre falar, ou não fosse mulher de Comunicação. Acredito que é através do diálogo que se resolvem e esclarecem todo o tipo de atritos ou mal-entendidos, embora por vezes me esqueça de que para haver diálogo é preciso que existam, pelo menos, dois seres humanos que cumpram funções de emissor e de receptor, caso contrário, a mensagem não é veiculada, recebida, interpretada, discutida. 

Às vezes, não serve de nada dizer. E quando assim é, se antigamente me dava ao trabalho de escarafunchar até receber sinais de vida do outro lado, agora não tenho pachorra: vou-me embora. 
Demorei muitos anos até perceber que não posso entrar na cabeça ou no coração dos outros e fazê-los ver, percepcionar e sentir o que eu sinto como real. Que as realidades variam de pessoa para pessoa, que cada um terá a sua verdade e que não me compete resolver todo e qualquer problema. 
Demorei mais anos ainda até perceber que só sou responsável pelo que digo ou escrevo, não pela interpretação que fazem disso.
E demorei uma vida até perceber que a única coisa que devo e posso fazer é proteger-me. É por isso que quando a energia não flui naturalmente, quando o clima me incomoda e começa a afectar a minha boa vibe, me afasto. 

Reparo que a maioria das pessoas que conheço teme tomar qualquer atitude que desagrade os outros, mesmo que os outros não tenham cuidado com elas. A maioria das pessoas que conheço teme o confronto ou qualquer postura que não seja adorável, gentil ou que represente um sacrifício qualquer. Por outras palavras, não querem que caia mal se fizerem o que lhes der na real gana. Então continuam a expor-se a energias negativas, continuam a ter contacto próximo com pessoas que não lhes fazem bem e cuja presença as incomoda, continuam a depositar em si rancores e a albergar ressentimentos, em prol de uma tradição ou costume que criaram nos seus cérebros. E esta resistência à óbvia mudança não é positiva. Mas já lá vamos.

O que me fez pensar nisto foi a simples observação de vários momentos e situações que vivi nos últimos tempos. Reflexão feita e concluo que eu, que optei por dizer e me afastar quando não me senti amada como mereço, bem-vinda ou agradavelmente recebida, dei por mim feita vilã, como quem perturba a paz do planeta por se preservar e estimar. 

Feitas as contas, só eu tomo conta de mim, do mais íntimo do meu ser, da minha alma. Não quero atribuir a ninguém a responsabilidade de interferir de algum modo na minha paz. É esse o único motivo que leva a que me resguarde de tudo o que não contribua para o meu bem-estar. E faço-o sem mágoas, sem dramas, sem fitas, porque aprendi que nesta nossa passagem por cá, as pessoas vão, voltam, surgem e tornam a ir, como tiver de ser. Quando desrespeitamos esses ciclos, sorvem de nós e nós poluímos o ar dos outros. E se assim é, mais vale aceitar e deixar ir, aceitar e deixar vir. Daí ter escrito que a resistência às mudanças não é positiva.

Sei que há pessoas com quem temos ligações mais profundas e que se vão mantendo ao nosso lado, mas também admito que sejam poucas. Num mundo povoado por seres que ignoram conceitos básicos e simples como a lealdade, não poderia ser de outra forma. 

Certeza de que não abdico é a de que não abro mão dessa transparência, dessa fidelidade ao Eu, de que a franqueza sincera e a negação da hipocrisia são estandartes. 

Há muitos anos, alguém me ensinou a depositar nos outros o peso que deixam em nós. A história era mais ou menos esta: certa noite, uma mulher já farta de sentir o rebuliço do marido pela casa durante as madrugadas, perguntou-lhe o que lhe tirava o sono.

«- Todos os dias, o Manuel me liga a perguntar se já tenho o dinheiro para pagar o que lhe devo. À noite não consigo dormir porque sei que me vai ligar pela manhã com a mesma questão.

- Ah é? Ele faz isso e é isso que te rouba a paz?

- Sim, porque tenho trabalhado imenso mas ainda não reuni o montante necessário e já não sei o que lhe responder.

- Deixa estar. Eu resolvo.»

Expectante e muito ansioso para descobrir que solução havia sido encontrada, o marido viu a esposa pegar no telemóvel, marcar o número do Manuel e dizer:

«- Manuel? Daqui é a esposa do Joaquim. É só para avisar que ele não vai pagar a dívida amanhã. Nem depois. Nem para a semana. Pode parar de ligar.»

Desligou imediatamente a chamada e perante a expressão incrédula do marido, saiu apenas:

«- Pronto, está resolvido. Podes dormir tranquilo que agora quem não dorme é ele!»

Permitam-me a analogia, é mais ou menos isto que me faz acreditar que a expressão do desagrado não é inútil. É que quando revelamos ao outro que não gostámos de algo, o peso sai de nós e fica do lado de lá. Retiramos de nós o que nos aumentou a carga e depositamos na origem. Claro que não defendo a acusação e o julgamento gratuito, mas creio que de uma forma saudável, é este desanuviar que ajuda a manter a paz cá dentro. Porque essa não pode ser abalada por atitudes que não foram minhas. 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

...e graças a Deus, ouvi apenas uma vez a piada do «Agora é que vai ser um 31!».

Candice Swanepoel
Seja em modo Surprise Party ou planeado por mim com direito a dress code, os meus aniversários são sempre sinónimo de casa cheia, gargalhadas, o cheirinho dos grelhados do pai, da cachupa da mãe, música, danças, o show da Mana, o momento em que me conseguem arrancar uma cantoria, sangria, semi-frio de morango e de maracujá, muita comoção e consequentes lágrimas minhas, abraços e mimos, conversas e imensas fotografias para mais tarde recordar. A noite nunca termina antes das sete da manhã e por vezes, o pequeno-almoço é lá em casa. Há quem fique para dormir e quem regresse para almoçar e jantar.

Este ano foi diferente. Depois de um dos semestres mais pesados e difíceis da minha existência, pedi a Deus que o meu dia fosse cheio de paz. Só isso. E foi tão bom. Não quis fazer uma festança, não quis a agitação nem a euforia, não quis mais que sossego. E foi tão bom. Jantei no meu restaurante preferido com pessoas que são uma constante no meu caminho, estive com outras que são uma surpresa boa. Nunca tinha feito praia no meu dia nem tinha tido três bolos de aniversário. Abraços, beijos, presentes lindos, a minha música, sorrisos, mãos nas minhas mãos, espumante cor-de-rosa, um exagero de pratos que adoro, a melhor praia, muito Sol, uma surpresa desconcertante, tanto mimo e ainda hoje, a gratidão. 

A consequência directa de tanta bênção é passar a semana a chá de cavalinha que é para não me armar em glutona.

«Quando eu era mais novo, havia uma coisa muito bonita que era a sedução.»

Megan Fox
Quando eu era mais nova, isso ainda existia. Ainda havia flores para oferecer e músicas para dedicar. Ainda havia mensagens bonitas e surpresas românticas, tudo sem receios de soar a foleiro.

- Vem à janela.
- Porquê? O que se passa?

E ele, lá fora, com uma cartolina com os dizeres «Amo-te Ana».

Parece ridículo, mas é tão bom abraçar a vulnerabilidade e a exposição com o objectivo único de fazer o outro feliz. E chamem-me machista, antiquada ou quadrada, mas é tão bom ver um homem não ter medo de cortejar e é tão bom ser mulher e ser tratada como tal, sem ter que fingir não ter sentimentos, sem simular frieza, que isto hoje em dia é tudo pão, pão, queijo, queijo, meio à bruta, sem rodeios nenhuns. Como se de máquinas nos tratássemos, tudo mecânico e sem mel, numa perversão do amor ou total ausência dele e de química, só física e atracção.
Gosto das nuances da sedução, das subtilezas das entrelinhas, dos olhares. Gosto das coisas à antiga. Da segurança no gesto e na atitude, da certeza do que se quer. Com classe.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Stenders

Durante a loucura dos Fashion Days no CascaiShopping, tive um contacto privilegiado com muitas marcas. Pude conhecê-las por dentro, ficar a saber um pouco mais sobre as suas histórias, perceber como funcionam para lá do que recebo e depreendo enquanto cliente. E houve uma que me apaixonou especialmente, talvez por nunca ter ouvido falar dela: a Stenders.

Não há em Portugal outra loja da marca nascida em 2001 com base na sabedoria ancestral oriunda da Letónia.

O espaço é pequeno, acolhedor e tão amoroso que se torna impossível não querer experimentar cada produto. Na minha primeira visita, fui muitíssimo bem recebida pela Joana, que cheia de pinta, carisma e simpatia, me aplicou um esfoliante na mão. O que aconteceu deixou-me boquiaberta: parecia que tinha feito um hammam localizado, tamanha a diferença de brilho e suavidade entre a esquerda e a direita.


Depois de uma introdução tão convincente como agradável, quis conhecer a restante oferta da Stenders, que inicialmente se dedicava apenas ao fabrico de sabonetes principalmente compostos por ingredientes naturais - extractos vegetais, óleos essenciais e ervas secas.


Actualmente, além da enorme variedade de sabonetes, a Stenders disponibiliza outros produtos cosméticos, oferecendo uma gama completa de produtos de rosto, corpo e cabelo, para uso diário e para proporcionar rituais de aromaterapia especiais.
O meu produto preferido foi um perfume. Já passaram imensos dias e ainda não o esqueci. É "o" perfume. Maravilhoso, totalmente a minha cara e durou horas e horas na minha pele. Ainda não fui buscá-lo, mas aproveito para avisar que faço anos no próximo dia 24. Glamorous Gold é descrito como sendo uma fragrância «com notas quentes e aveludadas, para adicionar riqueza, profundidade e um esplendor luxuriante e requintado». O preço também é muito agradável: 35,90€. 

A amplitude da oferta é tal que a secção voltada para a casa não foi esquecida. A  marca assume-se como «gardener of feelings» e tendo em conta a sua essência ligada à natureza, às plantas, é inegável que lhe assenta como uma luva. A todo o conhecimento tradicional que baseia a sua actividade, a Stenders não prescinde de uma equipa de especialistas experientes de laboratórios europeus de cosmética.  
Vale a pena visitar o CascaiShopping para conhecer este espaço mágico, para nos perdermos nos aromas, na delicadeza das embalagens e para nos deixarmos surpreender pela eficácia dos produtos. Saibam mais sobre a Stenders no facebook, aqui. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

segura num abraço

Audrey Hepburn
Aquela sensação de leveza e de adrenalina, não a sinto. Nunca mais a senti. E quando finalmente quis atirar-me novamente para esse doce abismo, o chão escapou-se-me. Foi por isso e pelas sucessivas dores que os outros me causaram - amigos em quem depositava confiança, principalmente - que me fui fechando em mim, porque eu não me firo. Não me traio, não me minto, não me desiludo. Eu não me morro. Então assim que sinto no ar a probabilidade do apego, fujo. Procuro motivos para me afastar, invento defeitos para continuar em paz. E esse estado de paz implica obrigatoriamente a ausência de romantismos e floreados. Construí muralhas tão altas, tão espessas as paredes que me rodeiam. Quando abro uma pequena fresta, à mínima ameaça à minha segurança, tranco tudo novamente. 

«Eu não posso ser penalizado pelo que outras pessoas te tenham feito» - verdade. E até lamento que não seja capaz de mostrar o quanto já gosto, o quanto quero. É-me mais fácil simular desapego, fingir desprendimento, numa indiferença forjada que esconde a doçura que nem quero assumir que existe.  

«Não podes ficar assim de cada vez que as coisas não acontecem como queres» - verdade. E até me podem cair lágrimas ao ouvir uma frase que um amigo que perdi me disse tantas vezes, mas do outro lado do telemóvel, só se sentirá frio. 

Não aprendo depressa, não sou simples e descomplicada, mas quem sabe se um dia não me dão a volta? Quem sabe se um dia não me volto a sentir segura num abraço e a querer ficar? Quem sabe se não consigo deixar de ter medo?  

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Fashion Days

Estive dez dias submersa num desafio intenso e muito mais enriquecedor do que poderia imaginar. Uma experiência que teve tanto de cansativa como de bonita, principalmente pelas pessoas - são sempre elas que contam. As que integraram a minha equipa, as que passaram a fazer parte da minha vida porque ganharam um lugar no meu coração, as que partilharam comigo fragilidades e que no final de uma consulta se abraçaram a mim de lágrimas nos olhos. 
Não vou esquecer a Sílvia, que não se sentia bonita há anos... nem a Manuela, que saiu da sua zona de conforto e depois de meia hora comigo, não resistiu - foi chamar-me para que a acompanhasse por mais lojas e permitiu-se vestir a pele da mulher que há tanto tempo queria ser. E marcou-me também a Soraia, uma menina de 19 anos que começou por se apresentar como «uma bolinha» e terminou a sessão de Personal Shopping consciente de que o problema nunca são as nossas curvas, mas sim os cortes e os tecidos que escolhemos para cobri-las.




Praticar Consultoria de Imagem sem futilidades mas actuando de dentro para fora, mexendo com a auto-estima, a confiança no que somos e abrindo portas para novas fases, mais felizes e repletas de oportunidades, é sem dúvida muito especial.







Os Fashion Days são perfeitos para que os clientes dos shoppings em que a acção decorre se sintam mimados, já que tornamos uma simples ida às compras num aconselhamento personalizado, exclusivo e requintado. Além de experienciar gratuitamente um Personal Shopping, houve muitos mimos: de Happy Hours a champagne ou mordomos com charriots para transportar os sacos, tudo foi pensado para que naquele momento os clientes se sentissem a viver o puro luxo.

A quantidade de pessoas que nunca tinha experimentado os serviços de uma Consultora de Imagem era enorme e a verdade é que depois de uma sessão de compras com acompanhamento profissional, dificilmente abdicarão da nossa presença.

Foi um prazer enorme ter sido escolhida pela Karacter Agency para integrar este projecto da Promofans e do grupo Sonae, no CascaiShopping.


[Deixo ainda um agradecimento especial à Wells por me permitir experimentar cremes para pernas cansadas (só tenho 30 e já me viciei em produtos para idosos!).]

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Adda.

Obrigada por mais de uma década de companhia leal, de mimo, de protecção, de carinho, de doçura. 
Passou num instante. 
Ainda ontem estávamos a receber-te pequenina num cestinho de verga. Chegaste numa Páscoa e a Mimi ainda usava totós no cabelo. De repente, já não estás cá, minha Addinha. Adícola. Adda. Linda nesse porte de cadela com classe, bruta todos os dias, alegre como uma cachorrinha. Presente à lareira, nos passeios gélidos do Inverno, nas festas lá de casa, a tua pata na minha perna quando me vias chorar.
No dia em que tirei esta foto, fomos à praia para comemorar o facto de estares melhor. Divertimo-nos tanto, não foi? E nos últimos tempos, a tua sorte foi teres tido o melhor veterinário do mundo e é por seres parte da nossa família que choramos com saudade. Nunca estive tanto tempo sem ir a casa e agora tenho medo de chegar sem ser recebida por ti, como sempre. Em criança tinha a certeza de que no Céu também caberiam os animais. Espero que seja verdade. 
Até já.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

CLASH | democratização do luxo

A perfumaria sempre fez parte da minha vida. Desde que me lembro de mim que uso perfumes e a minha mãe teve até uma pequena perfumaria de luxo durante a minha infância e adolescência. Do Oilily ao Tribu, da Benetton, há um cheiro para cada idade, cada fase da minha existência: o Light Blue, by D&G, o Tommy Girl, o clássico Burberry, o Ultraviolet by Paco Rabanne... foram tantos que acho que só quando descobri o Chance de Chanel na Faculdade, estagnei. É a minha assinatura, que alterno apenas com o Elie Saab, que amo de paixão. Gosto de aromas sexy e femininos: amadeirados, adocicados mas não enjoativos e sempre com musk na sua base. Opto sempre pelas versões Parfum em detrimento das Eau de Toilette (podem ler mais sobre as diferenças entre um e outro aqui) e gosto da saber que as outras pessoas associam determinado cheiro à minha pessoa - a memória olfactiva é muito, muito forte! 

E se sempre fugi dos perfumes que não integram um determinado segmento de marcas, por duvidar da sua qualidade, durabilidade na pele e pormenores do género, hoje venho partilhar convosco a melhor surpresa que tive nos últimos tempos. Aposto que já conhecem: Clash.

 








A marca britânica chegou a Portugal em 2014. A primeira loja a nível mundial abriu no Amoreiras Shopping Center e hoje contamos também com espaços Clash no Vasco da Gama ou no NorteShopping. Ao que parece, o nosso país é para lá de espectacular para testar novos conceitos, daí termos o privilégio de experienciar a democratização da alta perfumaria. 




Não se trata de uma marca branca, mas sim de uma marca com mais de 40 fragrâncias exclusivas, desenvolvidas por grandes perfumistas, conhecidos por criarem 15 dos 30 perfumes mais vendidos em todo o mundo (D&G, Tommy, Dior, Nina Ricci, Gucci, Givenchy...). A Clash Fragrances reuniu os melhores perfumistas do planeta para desenvolver as suas fragrâncias - Daniela Andrier, criadora do Prada Candy; Guillaume Flavigny, que desenvolveu o Balmain; e Sonia Constant, criadora do Burberry Burberry Sport for Men, são alguns dos nomes que assinam as criações Clash.



A organização das lojas é muito simples e os perfumes estão divididos por colecções: Riot, Urban Chic, In Love e #Girl, para mulher; Riot, Suit & Tie e Sporty, para homem. 



Mas nem só de perfumes vive a Clash: sabonetes, velas aromáticas, várias opções relacionadas com o olfacto e sempre com a exclusividade e a democratização do luxo como pano de fundo. 

E se a sofisticação é óbvia a partir do momento em que entro na loja, garanto-vos que os preços me deixaram rendida. Se não acreditam, digo-vos eu que os perfumes variam entre os 25 euros (frasco de 50ml) e os 40 (frasco de 100 ml). 


Já toda a gente se rendeu à Clash. E vocês, vão hesitar?

"a minha vida é um aglomerado de acontecimentos aleatórios"

A frase que serve de título a este post é tão repetida por mim e pela Mana que já não sei de quem foi a autoria de uma de nós foi!. Refere-se ao exagero de imprevisibilidade com que os nossos quotidianos são banhados e creio ter nascido numa semana em que todos os dias foram marcados por um acontecimento insólito que nos deixou boquiabertas - insólito e exagerado, inexplicável e surpreendente. 

Volta e meia, dou por mim a vociferar que a minha vida é um aglomerado de acontecimentos aleatórios porque tenho sentido que o Universo me quer ensinar à força que não vale a pena planear. 

Como se me quisesse obrigar a abolir verbos do meu vocabulário: idealizar, depreender, imaginar, ponderar, especular, presumir, esquematizar e tantos outros que impliquem qualquer tipo de previsão. 
Sempre que julgo ter uma expectativa racional, uma suposição séria e bem fundamentada, uma conjectura plausível, a Vida decide mostrar-me que sou um ínfimo grão de areia num deserto e que não devia armar-me em Nostradamus quando o assunto me diz respeito. 

Se por um lado, existem muitas surpresas boas, por outro, para uma control freak como eu, esta instabilidade pode dar comigo em louca. 

Comecei o fim-de-semana com novas certezas. Terminei-o abrindo mão delas e sem saber onde vou parar. Acho que a sacana da Vida me ganha pelo cansaço: vou deixá-la levar-me.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

os neutros de Kim Kardashian


Há quem a ame, quem não a suporte, quem siga todos os seus passos para fundamentar o ódio e quem almeje ser e ter tudo o que o seu sobrenome representa. A verdade é que Kim Kardashian é um ícone da cultura trash que marca o início do milénio. Goste-se ou não da rainha da Reality TV, há algo nela que tem vindo a adquirir contornos tão vincados como os da sua silhueta: o estilo. Sem abdicar da aura sexy que a caracteriza, Kim Kardashian revela-se num street style coeso onde predominam os tons neutros e a simplicidade das peças lisas.

Dos cinzas aos beges, passando pelos brancos, estes são os tons de que ela abusa sem pudores, do casaco aos sapatos, sempre com acessórios de linhas simples.


Grávida ou não, mais coberta ou mostrando mais pele, os looks monocromáticos são a sua escolha segura.

Confesso que sou apaixonada por estes looks e que adoro a ousadia de assumir as curvas sem medo de quebrar regras.


Como transportar este estilo para a vida real que é como quem diz sem um glam squad por perto, pronto a retocar o make up a cada cinco minutos e sem uma stylist para escolher o outfit do dia ?
Simples: aposte em peças lisas, sempre em tons neutros, e conjugue-as entre si.
 
Mulheres curvilíneas: para usarem roupas tão coleantes como a Kim, apostem em lingerie que vos faça sentir confortáveis, sem pregas à vista e que não crie vincos, porque estes looks vivem da perfeição nos detalhes!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Foste a minha última avó e eu a tua primeira neta.

Sete da manhã e eu continuava acordada. Sete da manhã e eu continuava a chorar. Que angústia. Acordei a saber que se passava alguma coisa, sem imaginar que terias partido. Mesmo quando estamos à espera, não esperávamos, não é? Mesmo que seja um alívio, é uma dor, não é?

Que ano do caraças. Pelo andar da carruagem, quando der por ela, este blog tornou-se num obituário. Tantas perdas, tantas lágrimas, tanta saudade. E a ti, sinto que já te tinha perdido muito antes que o teu corpo cedesse à morte. Deixaste de ser a Minha Avó Elvira quando as nossas conversas desapareceram. Foram demasiadas cirurgias, demasiadas chatices. Mas sei que já estás feliz ao lado do Vô António, de mãos dadas e aos beijinhos como quando me levaram ao Aquário Vasco da Gama. Ainda há dias revi essas fotografias. Vocês sempre me fizeram tão feliz. Nunca te disse, mas quero um amor como o vosso. E quero ser uma avó porreira, que anda de ténis e é diferente das outras avós. Quero ser a avó que transforma telas em branco em pedaços de arte para pendurar na parede. Que faz bonecas de gesso para as netas. Que decora um quarto com a cor dos teus olhos. Quero ter as estantes da sala cheias de livros que li. Quero continuar a escrever como tu sempre escreveste. E a sentir como sempre sentiste, mesmo que o escondesses.

A nossa conversa mais profunda de todas foi aquela na varanda da Tia Xana. Aquela em que me falaste da tua atracção por abismos, precipícios, pontes. O avô dizia-te "-E eu, Elvira?". E tu voltavas. E quando me disseste, em lágrimas, que não percebias porque ele te tinha deixado cá ficar, respondi-te: "-E eu, avó?". E quando pus a mão no teu caixão, na terça-feira passada, perguntei-te: "-E nós, avó?".

E eu?

Coça-me as costas. Faz-me a maionese de que nunca gostei porque prefiro Hellmann's. Deixa-me ouvir-te durante uma hora seguida ao telemóvel, como quando me ligavas e eu era só uma miúda a estudar em Coimbra. Responde-me às perguntas imbecis. Ri-te comigo. Faz-me cachecóis em tricot. Vamos almoçar fora. Vamos apanhar sol numa esplanada qualquer. Anda de mãos dadas comigo.

Já esperava há algum tempo. Isto de não conseguir ver-te sem desatar a chorar não fazia sentido. Há alívio aqui. E a certeza de que fiz o que pude, o que soube, o que consegui. Até o teu mau feitio durante aquele mês em que tomei conta de ti me faz sorrir. Pelo menos fui eu. Era o mínimo que podia fazer por quem me deu tanto. Minha Avó. Nunca te chamei avózinha e tu querias tanto.

Não sei se te agradeci o suficiente. Sei que sabes. Obrigada por me entenderes tão bem, é tão raro nesta família que me conheçam por dentro. Obrigada por me veres com os olhos da alma. Pelas tuas mãos nas minhas, desde que me beliscavas com o pico-pico-saranico. E que lindas mãos, Avó.

Tenho as tuas matrioscas à minha frente. Tenho coisinhas tuas em minha casa. São um orgulho, sabes? Sempre que digo "era da Minha Avó", há um bater mais forte do meu coração. Há de ti em mim. Por fora, mas tanto por dentro. Maria Elvira, espera por mim com o resto da comitiva - vocês são cada vez mais aí em cima. Dá um toque a Deus, preciso da atenção dEle. E descansa, ri muito, mata saudades do teu amor.

Até já.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

anarendallstylist

Estávamos em Dezembro de 2014 quando trabalhei pela última vez para outras pessoas. A decisão de me atirar para o vazio não foi irresponsável, mas sim um plano pensado e executado ao longo de dois anos. E só a tomei porque sabia que tinha uma rede de segurança infalível debaixo de mim, caso caísse.

Deixei para trás a imprensa regional e abracei o meu sonho: escrevi um livro. Depois disso, os meus pais ofereceram-me o impulso de que precisava quando completei os trinta anos e ordenaram-me que voasse. Quando dei por mim, estava em Lisboa, na cidade onde nasci, a estudar algo que me apaixona há muitos anos. 

Hoje, além de Jornalista, sou também Consultora de Imagem e estou a dar os primeiros passos num projecto para o qual tenho imensas ideias - algumas estou a colocar em prática e serão reveladas mais tarde. 

Neste primeiro dia de Junho, alio o meu blog pessoal à página de Facebook que criei para esta vertente mais recente da minha vida.

A partir de hoje, o Lady Lamp emparelha-se com uma nova era profissional, servindo também de extensão à área em que me especializei. Deste modo, poderei criar conteúdos diferentes daqueles que surgem na (ainda) única plataforma que possui a assinatura Ana Rendall Stylist. Em breve surgirá outro complemento, de que vos falarei em tempo oportuno.

Posto isto, já sabem: sempre que um post abordar temas relacionados com styling, moda, tendências e girly stuff do género, será partilhado na página e terá a etiqueta anarendallstylist. Contem com dicas, moodboards, sugestões, partilhas, esclarecimentos e participem com dúvidas, questões ou sugestões. Tenho a certeza de que este será um veículo de comunicação agradável para emissor e receptores.

Entretanto podem sempre espreitar este texto que escrevi quando inaugurei a minha página e que explica a ligação entre a minha formação académica, toda Comunicação, e a Consultoria de Imagem. Façam like por lá!

Obrigada por me acompanharem sempre. Até já! 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Gui

Andava triste, então deixei de escrever aqui. Agora todas as outras tristezas parecem caprichos. Sabes, um amigo nosso disse-me há tempos que eu devia deixar de escrever para os outros e escrever as minhas idiotices para mim. O que ele não sabia é que quando temos esta alma, é mesmo para nós que se vertem as palavras. Tive medo de me sentar aqui, de computador à frente e dizer-te mais do que o "desculpa" que tem saído sucessivamente. Mas acho que preciso.

Ontem vi-te ali, no sítio em que combinámos jantar tantas vezes. Nunca pudeste vir e nós, que achamos que o corpo dura para sempre, acreditámos todos que ia acontecer em breve. Vi-te sentado connosco, o teu sorriso vivo, as nossas conversas animadas. Em vez de te recordarmos, estávamos a aproveitar a tua presença. Em vez de nos desfazermos em lágrimas com um fado sobre a dor de quem fica, estávamos a ouvir os teus planos mirabolantes para a minha carreira internacional como fadista. E eu nunca quis cantar para ti. Desculpa.

Esta merda não pára. O choque. De repente, não sei nada. Estou com a vida suspensa desde Sábado. Não sei o que fazer. Ingenuamente, pensei que depois do funeral ia ficar melhor, como se esse evento tornasse real o que não processei. E fiquei pior. Sinto uma vergonha imensa por não conseguir dizer ou fazer alguma coisa que de algum modo console os teus amigos, cuja dor será maior que a minha. E sinto uma vergonha imensa por estar neste estado quando tens uma família que está a sofrer tanto. Só posso pedir a Deus que os alivie. Tenho tentado, ainda que calada, estar lá para a Maria. Mas a tua partida, tão violenta e sem sentido, mexeu com a estrutura de toda a gente.

Não me sai da cabeça a imagem da tua expressão enquanto me puxavas para dançar, na Sexta-feira. E estou cansada de reviver essa noite, uma vez depois da outra, vezes seguidas, analisando cada detalhe que poderia ter sido de outra maneira. Quando me disseste, num rasgo de espontaneidade, que deveríamos todos ir contigo ver o mar, ri-me. Devia ter levado a sério, devíamos ter ido. Devia ter-te dito como estavas bonito com o cabelo mais comprido. Tal como devia ter dançado contigo mais tempo.

No teu funeral, aquela música não saía de dentro de mim. Era impossível não rir às gargalhadas quando se começava a ouvir "Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza"... E cantávamos todos que em Fevereiro havia Carnaval. E ali estava eu, em pleno dia de Carnaval, em marcha para o cemitério. Nem os palavrões ajudam. E tu, que querias feliz toda a gente à tua volta, que depois de me secares lágrimas me dizias "Não podes ficar assim de cada vez que as coisas não acontecem como queres" e me obrigavas a sorrir à força e a levantar-me, tu não estás aqui. E eu vou sentir sempre que devíamos ter ido tomar o pequeno-almoço a algum lado, mesmo que chegássemos a casa à hora do almoço.

Ontem quando cheguei a casa, apesar de cansada e com um raciocínio lento porque só dormi duas horas, voltaste a fazer-me sorrir quando me apercebi de que só trouxeste coisas boas. Apresentaste-me o João Pedro e se não fosse isso, ontem não teríamos estado os três juntos aqui em Lisboa. Desta vez estávamos profundamente tristes, mas pelo menos juntos. Estiveste tão presente, mas fizeste tanta falta. Uma vez pensaste que eu estava mesmo chateada contigo porque estava farta de esperar por um espaço na tua agenda para vires ter connosco. Como poderia chatear-me contigo se a vida para ti era um parque de diversões?
E tanta gente sem interesse nenhum para o planeta continua cá... cresci com a certeza de que Deus tem um plano para cada um de nós e hoje não sei se Ele não lida connosco como o dono de um aviário lida com as galinhas. Na volta, isto é só uma sucessão de ocorrências aleatórias em que o efeito borboleta impera. Porque não faz sentido.

Passei as últimas semanas aterrorizada com a ideia de que a minha avó poderia morrer, ainda por cima numa data tão próxima do 7 de Fevereiro, 60º aniversário do meu pai... e acordei na manhã de Sábado com a violência do que aconteceu. Não faz sentido.

E se eu tivesse cedido aos teus impulsos conciliadores, se eu não tivesse sido tão dura? Desculpa. Desculpa. Desculpa. Isto vai ficar para sempre em mim. Um pormenor e podíamos ter evitado aquelas notícias que me enchem de raiva. Sabes, sempre estive do outro lado - do lado de quem as escreve. Nunca me senti muito confortável a fazê-lo, mas trabalho é trabalho e quando me pediam que sacasse a foto de perfil de alguém, sentia-me muito mal. "É público, Ana. Qual é o problema?" - o problema é este. Quem está do lado oposto, do lado que dói, do lado de quem perdeu uma pessoa. Do lado do vazio. Do lado de quem ficou mais pobre.

Achamos que vamos durar o tempo todo. Como se o corpo fosse eterno. Por isso é que deixamos para depois, por isso é que adiamos, por isso é que nos vamos conformando com o que temos por medo de dar o salto, de arriscar. Medo de viver. Achamos que vamos estar aqui para sempre e é por isso que nos chateamos com coisinhas miúdas. Por isso é que não perdoamos. Por isso é que damos lugar ao orgulho.

E tu já sabias isso. Apesar de seres mais novo que eu, falavas comigo como se eu fosse uma miúda. E em todas as tuas frases havia a certeza de que a vida era para ser vivida. "Vai", "faz", "diz".

Ontem a Maria perguntava ao João Pedro como é que se lida com isto. Claro que ele não sabe como. Ninguém sabe. Mas a certo ponto, ele perguntou: "Já decidiste tirar alguém da tua vida? Isso também é matar. Matar de ti". Só que nesse caso, primeiro dói, custa, temos saudades agonizantes, depois habituamo-nos à ideia porque foi uma vontade nossa. Contigo, não. Arrancaram-te das nossas vidas sem dó nem piedade. Ninguém escolheu. Estive contigo e na manhã seguinte, já não ia voltar a ver-te aqui. Nem sequer estavas doente, como quando alguém tem cancro e podes começar a imaginar um futuro negro. Não estavas velho, para percebermos que falta pouco. Não faz sentido.

Descíamos do cemitério com o teu primo e senti-me péssima - ele perdeu o primo e estava a dar-nos força. Disse tantas coisas bonitas sobre ti. E eu lamentei não te ter dito outras tantas - ou porque estava com sono e não conseguia acompanhar-te nessa energia toda, ou porque me fazias perguntas cujas respostas seriam demasiado extensas, ou porque depois teria tempo para te explicar melhor. Desculpa.

Não sei como vão ser os dias. Não sei onde ir. Não sei nada.
Passou tão pouco tempo e este fosso enorme parece aumentar.
Quando acordo, ainda não abri os olhos e lembro-me de ti.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

saber o que se quer

Tanta gente sem saber o que quer e a "deixar-se levar", que tenho para mim que esse é o grande problema das relações humanas - a par das falhas de comunicação, claro está. Generalizou-se o modo «não sei o que quero, mas sei bem o que não quero» e assim livraram-se os indecisos das culpas de viver sem uma meta, um foco, uma big picture. Como se isso bastasse. Guess what: no que toca a relacionamentos, não basta. No amor, há que definir muito bem o que se quer para não cair em comodismos. No amor, não podemos conformar-nos nem contentar-nos com pouco. Chamem-me fria, mas eu acredito na objectividade até no campo dos sentimentos. Com a idade, as prioridades também evoluem e se há alguns anos (muitos) me parecia engraçada e excitante a ideia de me lançar no abismo sem a mínima previsão do que pretendia do salto, hoje funciono de maneira diferente. Ai de mim, que era tão ingénua... acreditava que no plano dos sentimentos e das emoções, a espontaneidade era rainha. Que as pessoas tinham de se aceitar sem exigências nem cobranças, que as coisas fluíam naturalmente, sem cedências, esforços ou sacrifícios. Tudo petas à filmes da Disney. Não é nada assim que a realidade funciona, porque na vida real lidamos com pessoas e as pessoas não são perfeitas. Nem eu, acreditem eu sei que parece estranho, mas é mesmo assim. Deste modo, não há pachorra para os jogos estilo gato e rato, para o deixa andar, para indecisões ou faltas de atenção e excessos de cautela com frieza e distância à mistura. Quando sabemos exactamente o que queremos, para onde nos dirigimos e onde vamos chegar, eliminamos perdas de tempo e pessoas desnecessárias. Elevar os padrões e definir um rumo afasta-nos de quem não interessa, porque quem realmente importa não se assusta com a nossa elevada exigência.

Resumindo, as longas conversas entre amigas resultam sempre em posts cheios de convicção. Isto porque entre solteiras e comprometidas, há sempre algo de que não consigo admitir que uma mulher abra mão: da sua independência emocional. O outro deve ser um extra, o porto de abrigo, o escape do rame-rame do quotidiano e não um apêndice ou o centro da nossa existência. Parece uma daquelas verdades óbvias, mas é tão esquecida que me chega a assustar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Foi sem querer.

Foi sem querer.
Desde pequenina, fui aprendendo. Fui-me formando. Fui deixando que a armadura engrossasse, fui-me habituando a desconfiar - até dos mais próximos. Fui sendo levada a não abrir a porta a qualquer sorriso, a não dar de mim só porque sim. Desde pequenina, desde muito pequenina mesmo. Quando dei por mim, já era a antipática da família, a mandona da turma, a má. A ternura foi ficando reservada apenas para momentos sagrados. A doçura, aplicada apenas em pequenas doses. Não fui eu que quis assim - aconteceu assim. Aprendi a disfarçar fragilidades, a não gostar da vulnerabilidade, aprendi que a defesa é o melhor ataque, já que este planeta é maioritariamente povoado por maldade. Aprendi que o mundo é dos fortes e que não podemos dar espaço a fraquezas. Se as mostrarmos, alguém se há-de aproveitar da situação para nos pisar mais um bocadinho. Dei por mim a saber chorar sozinha no meu quarto e a encarar a rua de sorriso nos lábios e olhar altivo, a esconder-me em mim e esta semana, percebi que esta minha maneira de ser áspera afecta os outros. Já tinha uma leve noção, confesso. No entanto, como não dou grande importância ao que os outros dizem ou pensam (outra característica de quem se torna superficialmente frio), julgava que as minhas palavras não tinham tanto impacto como isso. Mentira. Podem ter.

Numa aula do curso que estou a tirar, usei uma expressão sem importância para referir uma certa falta de gosto que tenho pelo estudo como a maior parte das pessoas o encara. Dizia que só gosto de estudar aquilo que me apaixona, que não sou de marrar por obrigação. "Nunca gostei de estudos sérios", disse, numa frase pouco pensada e extremamente coloquial. Todas as pessoas que fizeram uso da palavra depois da minha intervenção usaram a mesma expressão: "Estudos sérios, como referiu a Ana"; "Estudos ditos sérios, como disse a Ana"; "Tal como a Ana afirmou, estudos sérios". No caminho de regresso para casa, percebi que as pessoas ouvem o que digo com mais atenção do que eu própria verto as palavras. Tenho uma voz grave, bem colocada, marcante. Isso ajuda, claro. Mas a questão é que saí dali consciente de que talvez devesse pensar mais no que digo. Dizem que as palavras têm poder, certo?

No fim-de-semana passado, sofri sozinha as consequências do que disse sem pensar, num laivo de raiva. Disse-o convictamente, como sempre disse tudo. Não sei comunicar sem ser assertiva ou sem acreditar no que afirmo. Não há doçura nas minhas palavras, mesmo quando amo o meu interlocutor. E de tão dura ser, afasto, magoo, irrito aqueles que queria ter perto de mim. Gostava de ser melhor, de emanar mais amor, verbalizando-o sem medo de me colocar numa posição desfavorável. Gostava de saber como.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Passo a vida a seguir em frente.

Miranda Kerr
Era marcares o meu número enquanto entras na cidade, em vez de pensares em mim e ficares calado. Em vez de me dizeres no dia seguinte, numa mensagem a que não consigo responder, que estiveste tão perto. É que ainda te vejo por todo o lado e é tão triste fazer o caminho todo a evitar olhar para tudo o que me faça lembrar de ti. E depois chego a casa e continuas ali, presente no que imaginei mas que nunca te contei. Estás em cada pedaço de cidade, em cada espaço. Queria levar-te a alguns deles. E há outros, onde estiveste, a que vou sozinha para encontrar um bocadinho de ti. Para matar saudades. Para tentar deixar lá tudo o que é teu e está cá dentro. Não quero ter isto em mim. Não gosto de te encontrar em tantos carros que se cruzam comigo no trânsito. Não gosto de te ver noutros sorrisos. E quando regresso, ainda é pior. Sei que foi ali que estive sentada enquanto me ria durante as conversas parvas ao telemóvel. Lembro-me de descer aquelas escadas para ir ter contigo. E foi naquela esquina do jardim que me pediste que te contasse uma história para que adormecesses. Claro que não consegui conter o meu natural dom para ridicularizar o que é bonito e desconstruir o que me enternece. Sabe Deus o que quis abraçar-me a ti nesse momento. Sabe Deus o que queria abraçar-te agora. Tirar-te dessa vida escura em que insistes em permanecer, mesmo sabendo que poderias ter tão melhor. Era tão fácil acabares com isto. Será que se soubesses que eu sei tudo se tornava mais fácil? Será que se soubesses que não me irritas, não me enervas, não me fazes nascer raiva nenhuma, se tornava mais fácil? Não sei. Acho que também não interessa. Passo a vida a seguir em frente. É que o caminho não é curto e no final, só posso contar comigo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O que fazem os namorados

É simples: se a pergunta for sobre as funções que uma namorada tem a seu cargo, consigo dissertar durante horas. Já o escrevi muitas vezes, em vários contextos, em imensos espaços. Ser namorada é ser a companheira. A cúmplice. A amante. A amiga. Às vezes é mãe, quando toma conta dele. Porto de abrigo, mar onde se perdem os dois, corpo e alma dedicados a um homem. Mima-o sem motivo. Recebe-o com o jantar preferido na mesa e faz-lhe uma massagem antes de dormir. Fá-lo sentir-se um privilegiado por tê-la só para si. Ela ouve-o, encoraja-o, anima-o. Elogia-o com sinceridade, é paciente e compreensiva sem deixar de dizer o que pensa e de expressar o que sente. Ama-o e mostra-o diariamente. Compra uma lingerie nova só para o surpreender. Produz-se para ele só porque sim. Dá-lhe colo, adormece-o com festas no cabelo. É a  pessoa que alinha nas parvoíces, que se ri com ele, que o faz rir depois de um dia mau. Que não foge a um desafio só para o acompanhar. E é aquela com quem ele quer partilhar noites de copos, apesar de ela o encorajar a passar tempo sozinho com os amigos, porque também precisa de tempo para ela e para os amigos dela, que ser casal não é abdicar da individualidade.

...e depois perguntam-me «e o namorado»? E a resposta é curta:
- O namorado recebe.

Soa a redutor, parece que não espero muito do outro lado, mas saber receber é uma arte. Saber receber significa honrar o que foi dado. E honrar o que foi dado não é simplesmente sinónimo de reciprocidade. Valorizar, cuidar, proteger, transmitir segurança e manifestar amor no dia-a-dia são provas de que se sabe receber. E sendo que estamos a falar de homens, é claro que para um namorado digno desse rótulo, a namorada é a única mulher com quem ele quer partilhar intimidade. E intimidade não se refere exclusivamente a cama.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

desabafos sobre coisas sem importância (mas que importam)

Beyoncé
Dizem que a meia-estação é aquela altura giríssima em que podemos dar asas à criatividade no que toca à escolha de outfits. Claro. Visto de fora, parece fácil. Calças uns botins e vestes um vestido. Pelo sim, pelo não, levas um casaco. Acessorizas com um lenço ao pescoço e quando olhas para o espelho, pensas «que porra é esta?». Ainda tentas melhorar a coisa com um cinto, mas não vale a pena. Pareces a Heidi.
Despe. 
Segunda tentativa, já impaciente: calças de ganga. Até levavas aqueles pumps maravilhosos, mas o que vais ter de andar a pé em calçada portuguesa faz com que prefiras jogar pelo seguro: botins, salto grosso. Top de alças, liso. Um sobretudo. Demasiado calor com ele. Demasiado frio sem ele. 
Despe. 
Experimentas um biker jacket. Também não.
Despe.
E um blusão de cabedal simples? Not.
Despe.
Vamos à camada inferior. Escolhes uma camisa. «Que horror, tão tapada». Abres mais um botão. «Vê-se o soutien e não funciona». Torna a fechar a camisa mais um bocadinho. Agarras num blazer, só para não ter que pensar muito, mas não gostas de o ver com os botins. 
Descalças os botins. 
Calças uma porcaria de uns ténis em animal print, tiras uma qualquer t-shirt oversized do armário e sais porta fora com um cardigan na mala, que o frio do final do dia já deixou de ser problema no meio de tanto drama. E nisto tudo, só se safa a make up gira e o cabelão louco.

Sou eu. Todas as manhãs de meia-estação.

Isto para mim, cá entre nós, ou era Inverno ou era Verão. Ou é sandalinha ou é bota. Ou é sobretudo e parka quentinha ou alças e ombros a descoberto. Não tenho pachorra para não saber o que hei-de vestir, odeio o revirar de olhos em que me perco durante preciosos minutos porque não sei o que hei-de calçar - na verdade, eu andaria de stilettos todos os dias, não fossem os perigos da calçada que me assombra por todo o canto. Deviam inventar alternativas válidas para o dia-a-dia em que para obter conforto não tivesse que abrir mão do meu gosto pessoal. Odeio ver-me de ténis. Odeio usar sabrinas. Não gosto de rasos. Sinto-me anafada. Gosto da elegância dos saltos, da postura, dos passos seguros. 
Detesto a meia-estação de quem anda a pé. 
E nisto, já é Outubro. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

deixar o eu ser

Drew Barrymore
Não sei quando foi que aconteceu, mas podia apostar que tinha sido no dia cinco de Dezembro passado. Foi esse o último do meu contrato. Creio que nessa noite tenha sido inundada de liberdade. Mergulhada em liberdade. O frio na barriga, como a vertigem de quem se vai atirar de um precipício. O leve peso das asas. O vento gelado na cara. Foi aí que senti que podia voltar a mim. Ser eu. Expressar a minha opinião como e onde me apetecesse, sem o fardo da figura séria da jornalista. Deixei de me lembrar das expectativas dos outros, do determinado tipo de comportamento que esperam de nós quando trabalhamos numa cidade pequena. Saí do palco. Só quem se move em meios pequenos pode compreender a sensação, mas é um não querer saber que sabe a ondas. É um quero lá saber que sabe a mar. É um ser o que somos. Independente. Friamente. Livremente. E esta forma de estar, que já era parte de mim em tanto espaço da minha vida, apoderou-se, aos poucos, de cada recanto da alma. Quando dei por ela, era o que sou em todas as vertentes. Ser o que se é pode ser um desafio: afasta alguns, aproxima outros, mas torna-nos completos. Coesos. Dizer o que se quer, o que se pensa, o que se sente, sem ter em conta o que os outros esperam de nós, é ser leal. Poder fazê-lo é um privilégio. Requer coragem. Não tem a ver com aquela nova noção de honestidade que apregoa o ferir de susceptibilidades e a abolição do cuidado com o próximo. Não se trata daquele género de atitudes que defende que devemos dizer tudo o que nos passa pela cabeça e quem se sentir ofendido, paciência. Não é nada disso. É nutrir e exprimir, a cada acção, um profundo respeito pela nossa essência. É não tentar caber no agrado alheio. Isola-nos, claro. Porque agora não se conta o que antes era natural ou óbvio partilhar. Porque agora não dou o meu parecer porque não me apetece. Porque agora não perco tempo com o que não quero. Porque agora sigo as minhas normas, não as deles. Porque há uma clara tendência na maioria para amar os cordeiros do rebanho e desdenhar quem sai da norma. Mas quanto mais longe do mundo, mais perto de mim.