sexta-feira, 18 de outubro de 2019

sobre as fobias

Só sabem da minha fobia aqueles em quem confio. Não falo dela por ser um assunto sério. Incapacitante, que me fragiliza e expõe como poucas outras questões. A minha fobia descontrola-me. Gela-me. Limita-me. Torna-me inútil. Infantil, até.
É difícil de compreender como é que alguém tão corajoso e forte perde a sanidade tão facilmente perante algo tão pequeno e irrelevante para a maior parte das pessoas. Mas é mesmo isso: tolda-me, anula-me a razão. Perco as estribeiras. Não consigo reagir.

Já tive várias situações de perigo por causa disto. Quase-acidentes de carro, por exemplo. E depois há as situações absurdas, de tão incómodas - esta semana passei uma noite em claro e algumas das horas desse período, de pé, no centro da sala. Não dormi. Não chorei. Bloqueei. Fiquei ali, de pé, durante mais de 120 minutos, à espera que finalmente chegasse o dia. Pensei ir para o carro dormir, mas não consegui. 

Porque quem tem uma fobia não consegue nada. Não consegue agir, nem ter coragem nem ser melhor que aquilo. E sabemos que estamos a ser irracionais e estúpidos por não resolver o problema como a maioria da população mundial. Sentimo-nos uma merda porque não controlamos as nossas reacções e damos por nós a pensar que talvez nunca consigamos viver sozinhos porque a fobia não é de elefantes, é de uma coisa que pode aparecer em nossa casa. Não há problema em ser-se europeu e ter-se pavor de leões. Ninguém critica alguém que tenha medo de girafas. Mas há fobias de coisas que fazem parte do nosso dia-a-dia. E sempre que penso em recorrer a um terapeuta para dar cabo disto, recuo quando me ocorre que a certa altura do processo, terei invariavelmente que ser confrontada com o objecto do meu medo. E eu não consigo.

E por não conseguir, depois de uma crise como a que tive ontem à noite, fico mesmo triste comigo. Sinto-me a Ana de quatro anos a desiludir o mundo por não conseguir levar a cabo um gesto tão simples. 

Ao mesmo tempo, irrito-me quando me dizem que tenho de controlar o medo. Que tenho de me acalmar. Que são coisas da minha cabeça. Que aquilo não me faz mal nenhum. Como se por ouvir essas verdades tão fáceis, o meu cérebro decidisse comandar o meu corpo até um qualquer estado de paz absoluta. Meus queridos, a coisa não funciona assim, com muita pena minha. Ou acreditam mesmo que alguém gosta de se sentir louca e ridícula perante algo insignificante depois de ter sido, em tantos episódios dramáticos ao longo da vida, uma fortaleza?

É por isso, pelas piadas parvas, pelas gracinhas e partidas de quem não tem a mínima noção do que é viver com uma fobia, que não falo da minha a ninguém que não mereça a minha confiança.
Só sabem desta minha fragilidade aqueles que sem julgar, me defendem dessa reacção exacerbada, acalmando-me, ajudando-me, protegendo-me. Porque tal como eu, sabem que é irracional e, portanto, incontrolável.

Sem comentários: