domingo, 22 de setembro de 2019

a sós comigo assim

Carrie Bradshaw
Sábado à noite. Passei o dia com a pior das neuras e a evitar pensar em tudo o que me incomoda. E «tudo» nesta frase equivale mesmo a um aglomerado de muitas coisas. Cheguei a pensar que seria TPM. Não é. Sou eu a não querer largar o Verão. A não saber como resolver as chatices do dia-a-dia. A não querer cansar-me. Apetecia-me sair, ir sozinha deixar as ansiedades que me pesam numa qualquer pista de dança, beber uns gins, andar à beira-rio. 
Fiquei em casa. Até comi chocolate. Fiz máscaras hidratantes, pintei as unhas, ouvi música, elaborei uma lista de compras para este Outono que parece querer forçar a sua presença. E enquanto comia sem culpas aquele chocolate sem que me soubesse ao que desejava, fez-se luz. Depois de anos a amar estar sozinha, foi esta a primeira vez que a minha companhia não foi suficiente.

Sou plena. Sou mesmo feliz só comigo. Tenho especial gosto nos meus momentos, dentro ou fora de casa. Gosto muito de mim, de estar só. Não me entristece não ter ninguém por perto, pelo contrário, preciso disso. Sempre precisei de tirar tempo para mim. Mas houve uma conversa esta semana que mexeu comigo - tanto que não sei se saberei explicar verbalmente o impacto que teve.

Encontrei-a por acaso; ia beber um café e acabei por ficar à conversa durante imenso tempo. A L. é uma mulher de que gosto muito. É bonita, interessante, inteligente, criativa e cheia de carisma. Há mulheres assim, charmosas pela profundidade que o olhar não esconde. Que são notadas não pela óbvia beleza mas pela intensidade do seu semblante, do seu porte, da sua voz. Além de tudo isto, é independente e tem muito mais experiência que eu. Muito mais anos de vida que eu. 
Sempre conversámos, sempre a ouvi com a avidez de quem sabe que tem a aprender com aquela pessoa mais sábia e vivida. Sempre a admirei pela autonomia, pela pinta e pela total ausência de fragilidade. Na verdade, sempre me identifiquei com a sua postura de mulher de queixo erguido e sem dependências do sexo oposto. Confesso que sempre tive um fascínio por mulheres mais velhas que não precisam de uma relação amorosa para se sentirem completas e felizes.

Partilhávamos novidades e a L. perguntou-me «E namorados?». A minha resposta foi a mesma de sempre - que nesta fase não tenho disponibilidade para isso, que não me apetece assumir nada, que adoro estar sozinha, sem cobranças nem uma presença obrigatória e constante no meu espaço... e desta vez, ela disse-me para ter cuidado. Perante o meu espanto, explicou-me como não teria sido assim tão negativo ter sido um pouco menos fechada e exigente. Que não era apologista do desespero que leva tantas pessoas a baixar os seus padrões para se acomodarem em relações pouco satisfatórias, mas que agora percebia com clareza quão viciante se pode tornar o conforto da solitude. 

«Pelo menos abre os olhos», disse-me. «Ainda que não procures, olha à volta e permite-te receber. O abraço dos meus filhos não é igual ao abraço de um companheiro. O abraço dos meus netos também não. Nem o da minha irmã», disse-me, ao fixar o olhar nos meus olhos, como quem sabe perfeitamente o que é ter na irmã o porto de abrigo, a parceira e a companhia que nunca incomoda. Também a L. tem uma irmã mais que irmã. Também a L. tem uma vida social preenchida, amigos com quem estar sempre que lhe apetece, uma profissão que a preenche e hobbies maravilhosos. Também a L. se sente confortável estando solteira. Mas ao contrário de mim, a L. já sente o vazio da sua casa porque tem mais décadas desta vivência autónoma e livre dos comprometimentos amorosos.
Compreendi aquele alerta. Senti-o dentro de mim. Pela primeira vez depois de tantos anos, depois de tantas conversas tão inúteis como intrometidas com quem não compreende a minha felicidade sem um macho em quem me pendurar, soube no meu íntimo que não devo continuar tão crítica, tão irredutível, tão inacessível. Que não perderei autonomia por partilhar mais momentos com um homem. Que não quero chegar aos 60 a desejar ter sido menos fria, menos distante, menos indomável.

Depois de uma longa conversa, com confidências suas, acabei por concluir que talvez tenha chegado o tempo de experimentar permitir que alguém chegue perto outra vez. Mesmo que morra de medo que a minha paz seja perturbada. «Mas é tão frágil assim a tua paz? Depois de tanto trabalho interior, achas que qualquer pessoa pode roubar-ta?». Ela tem razão. Porque não?

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