quarta-feira, 15 de maio de 2013

Luanda #2

Ainda não fazia ideia de tudo o que iria encontrar e sentir quando a minha tia chegou. Apercebendo-se da nossa óbvia intenção de colocar a bagagem no carro, dois jovens decidem ajudar-nos.
“- Tia, dá só vinte euros!
- Vocês não fazem ideia de quanto dinheiro são vinte euros, pois não?
- É, não...”
A tia deu-lhes umas notas de kwanzas e seguimos caminho. O trânsito era caótico, as motas passavam por cima dos duplos traços contínuos sem medo de cortar a mão a quem seguia na sua faixa. Sem medo de bater, sem medo de morrer. Um engarrafamento desorganizado como nunca tinha presenciado, uma confusão assustadora. Durante a curta viagem, a mãe ia tentando encontrar referências da Luanda que já não existe na Luanda actual. Para mim, tudo novo. Aqueles miúdos vendem de tudo por entre os carros, eram brinquedos e redes mosquiteiras, acessórios para os carros, bebidas, telemóveis topo de gama. A noite já tinha caído e eles continuavam ali, a ganhar algum no meio do trânsito. Estacionámos junto ao Chitaka, um restaurante perto da marginal. Mal entrámos, a minha mãe começou a acenar e numa das mesas, um homem respondia com o mesmo gesto. Era o Waldemar Bastos, um cantor que pelo que me disseram, é bastante conhecido. Depois de conversarem um pouco, fomos sentar-nos numa mesa indicada pelo Relações Públicas do espaço. Olho para ele. Uma vez mais. As sobrancelhas franzidas e os olhos semicerrados para ter a certeza de que focava bem o rapaz. Repito, já com um sorriso a nascer no rosto. A tia e a mãe já em pânico, pensando que gozava com um desconhecido. Ele retribui o sorriso e o espanto, 'o que é que estás aqui a fazer?', 'acabei de sair do aeroporto!', um abraço e a comoção a humedecer o olhar. Partilhámos a mesma Escola Secundária, os mesmos amigos e os mesmos motivos para rir durante horas. Sabia que o André estava em Angola, mas não podia imaginar o que fazia nem onde trabalhava. Além de mais bonito, ele estava também mais feliz. E que bom foi chegar e ter uma surpresa tão surpreendente.

2 comentários:

Sophia B. disse...

Que engraçado!! Há coincidências do caneco!! Eu conheço-o mas só de ir lá almoçar!
=)

Ana Catarina disse...

ainda bem que encontraste alguém conhecido! :)