quinta-feira, 12 de abril de 2018

[ era tudo tão simples, era tudo tão bonito ]

Nina Dobrev
E ontem, ao telemóvel com a minha amiga que menos noção tem do todo maravilhoso que é, senti-me outra vez miúda. Deixámos o presente e viajámos até um tempo que já não existe, só na memória, no peito, na História.

- Eu também adorava fazer as roupinhas para as minhas Barbies com as amostras de collants opacos!

Recordar com pormenor cada detalhe, como se estivesse lá, certas brincadeiras, coisinhas pequeninas que me divertiam tanto. A criatividade que me guiava, uma mente sempre pronta a criar, uma imaginação infinita - tão infinita como os sonhos que sonhava acordada. 
Partilhámos todas as possibilidades que uma caixa de papelão oferecia, todas as bandas desenhadas que líamos repetidamente, rimos com a lembrança dos livros d'Uma Aventura.

- Também achavas as ilustrações horrorosas? Eu tinha a certeza absoluta de que faria melhor! Aquele cabelo das gémeas nunca me convenceu.

E voltei a mim, lá, no meu quarto. O tapete em tons de lilás debaixo dos meus pés, à minha frente a janela de madeira branca, aberta num dia bonito de Primavera, o sol a iluminar o espaço todo, tão grande era aquele meu pedaço de casa. 
Há uma brisa suave que agita as árvores do quintal. Há uma hera mágica a cobrir as pedras do muro do pátio, cada folha tinha poderes mágicos para que quem as segurasse fosse dotado de coragem para alcançar qualquer objectivo. 
Convenci meninas a andar de bicicleta sem rodinhas com esta história. 
Mal sabia eu que iria precisar de folhas de hera todos os dias, que crescer é uma dor imensa e uma coragem hercúlea a cada instante. 

Nas minhas mãos não há verniz nas unhas, estou bronzeada porque passo as tardes a brincar na rua. No pulso, tenho um relógio cor-de-rosa com o Mickey Mouse. Sim, os braços são os ponteiros. Abraço a minha Vó quando quero, ando de ténis, uso o cabelo num ponytail, decido o que quero lanchar sem pesos na consciência. Toco nas sardaniscas que espreitam das fendas dos muros, faço bailarinas com as papoilas que apanho nas bermas dos caminhos e rebolo no chão com a minha cadela. 

Sou feliz. 
Sou feliz todos os dias. Sou feliz quando a minha mãe me vai buscar à escola no Saab bordeaux e me deixa abrir a janela do tecto. Sou feliz quando uso o meu gel de duche da Oilily, depois a loção corporal e o eau de toilette da mesma marca. Sou feliz quando tenho o campo de futebol do cimo da rua vazio, só para mim, e posso andar de patins à vontade. Sou feliz quando mergulho para a cama dos pais, os lençóis verde água parecem uma piscina. Faço parte do clube da Barbie. Tenho um jeito incrível com as raquetes. Não quero sair de dentro de água, estou sempre na piscina. Escrevo muito, invento revistas que construo com folhas agrafadas e marcadores, crio artigos e desenho as roupas e as modelos dos editoriais, onde ficou esse potencial todo? 

Era tudo tão bonito, podia brincar um pouco mais enquanto o pai não chegasse a casa do trabalho para irmos jantar. Ajudo a pôr a mesa enquanto faço rir a Vó e no meu lugar, pouso com vaidade a louça da Turma da Mônica. 
Não quero saber se estou despenteada. Não quero saber das minhas bochechas. Sei que a beleza está em mim, dentro de mim. Sei que vou ter uma vida linda porque não mereço menos que isso. Todos confirmam a minha inteligência acima da média, a minha maturidade, a minha criatividade. 

Toda a gente via. 

Eu vejo, daqui. 

Espero não desiludir aquela miúda tão fofinha como chata, tão ingénua, tão feliz. 

1 comentário:

Ana disse...

Gostei mesmo muito do texto!
Beijinhos,
https://chicana.blogs.sapo.pt/