terça-feira, 29 de julho de 2014

a c o r d a r

Barbara Palvin
Há um dia em que acordamos e dizemos que já chega. Basta. Foi uma tia minha que mo disse e não se referia àqueles jogos femininos do estilo «Ai, agora não lhe vou dizer mais nada, não vou ligar nem enviar sms». Não se trata de uma decisão e não depende do nosso querer. Não é a nossa vontade que faz acontecer. É como uma incontrolável reacção do organismo: como um vómito que não conseguimos evitar, um soluço, um engasgo.
Gastamos tempo com uma pedra no sapato, em vez de a tirar de lá de uma vez por todas. Vamos moendo a pele, o pé, a perna inteira, até que as dores nos façam coxear. Tentamos, damos tudo de nós, porque sim, porque não pode ser de outra maneira e se eu desistir já, ainda me arrependo porque não dei tudo, não tentei tudo, não fui suficientemente persistente. E até sabemos, no fundo, que estamos a dobrar demasiado o nosso orgulho. Que estamos a ceder demais. Mas continuamos, porque não sabemos ser de outra forma. Apesar de tudo o que não gostámos, mantemo-nos ali, tão firmes como doces, tão amáveis quanto prestáveis, tão atenciosas como desprezadas. E de repente, esgotámos o plafond de tudo o que é bom com alguém. De um momento para o outro, não há mais para dar. Nada. Esvaziaste-me. Não há sequer um «olá» que apeteça dar. Não há mais que cansaço. Morri um bocadinho por dentro, mas já floresci. E hei-de limpar o meu jardim, hás-de ser só mais uma erva daninha que arranquei daqui. Fomos jardim, ficámos silvas. Fomos jardim. Secaste-o.

2 comentários:

Joana disse...

Gostei muito deste post porque me identifiquei com ele. Passei recentemente por uma situação semelhante, não por culpa da outra pessoa mas ainda assim foi algo desgastante. Agora tirei a pedra do sapato e sinto-me muito mais leve. Acho que fizeste uma descrição muito boa do que é sentirmo-nos assim. Bom fim-de-semana :)

Tia P. disse...

Muito verdade! Adorei o "fomos jardim, ficámos silvas"... como te entendo :)