quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Do fundo da gaveta #7

Isto passou-se há tempo suficiente para que já não me lembrasse do episódio:

"Estávamos sentadas no café de sempre. 
O velhote entrou e depois de me fitar, tirou do bolso de dentro do casaco um pequeno embrulho. Estendeu-mo e disse: 
-É para si. Tem uns olhos tão bonitos… 
Claro que olhei imediatamente para a Di e pensei “mais um velho tarado…”: 
-Peço desculpa, mas não posso aceitar. Obrigada. 
O senhor insistiu: 
-Aceite. 
E sentou-se, com o ar mais natural do mundo, na mesa atrás da nossa. 
-Diana, o que é que eu faço? É má educação não abrir, mas eu não quero aceitar… 
Ainda nos ríamos com o inesperado dilema, bebendo o café nervosamente e com a prendinha ali pousada, quando o velhote começa, depois se desculpar pela sua excêntrica abordagem, a divagar sobre a sua vida. Lamentava a velhice a cada frase e trazia no olhar a saudade dos tempos do Ultramar, em que tinha sido o jovem fardado da fotografia que nos mostrou. Contou-nos das suas bonecas, percebemos que havia sido um verdadeiro Don Juan em tempos de Salazar, com a amada à sua espera na metrópole. 
-Coimbra não é nada quando comparada com a beleza de Lourenço Marques. 
Falou-nos dos sítios por onde passara, sem nunca nos dar espaço para que pudéssemos intervir no seu sôfrego monólogo. Não nos perguntou o nome, não pediu mais nada senão a nossa atenção. 
Deixámo-nos ficar um pouco mais, já rendidas à compaixão pela solidão daquele Pai Natal de Novembro.

Ele é avô de alguém. Sete netos. Os meus avós não sentem a necessidade de ir procurar atenção num qualquer café. Os filhos e os netos ouvem as suas histórias antigas, tão gastas como as folhas já amareladas de um livro antigo. A minha bisavó sempre viveu comigo. Sempre teve companhia e eu sei que morreu feliz, porque apesar de nos irritarmos mutuamente vezes sem conta, como quando ela me acordava às três da manhã para ir para a escola ou eu lhe roubava o terço para fazer de colar numa boneca, sempre fomos as melhores amigas. Era no colo dela que eu deitava a minha cabeça quando algum problema de criança me roubava a paz. E ria-me quando ela me dava cinquenta escudos para que eu comprasse seis litros de leite, um quilo de bananas, queijo, fiambre, pão… vivíamos em mundos diferentes. Ela não sabia ler nem escrever, não fazia ideia de quem tinha sido Luís de Camões, mas eu ensinava-lhe as minhas coisas importantes, tal como ela me ensinava as dela. Ouvia os Ondachoc comigo e eu aprendi palavras em Kimbundo, um dialecto angolano que a minha Vó falava. Apesar de ter nascido antes de 1900 e eu só ter visto a luz da sala de partos oitenta e cinco anos depois, partilhávamos momentos. E ela nunca se sentiu só.

Não sei porque não se estimam os velhos. Esquecemo-nos que os velhos já trilharam o nosso caminho e esquecemo-nos que não vamos ter sempre um rosto sem rugas. E temos tanto a aprender com eles…

Cheguei a casa e abri o presente. Era um colar com um pendente em forma de coração."

8 comentários:

Turista disse...

menina lamparina, gostei de ler este teu texto ao mesmo tempo tão terno, tão verdadeiro e tão nostálgico.
E daqui a uns anos, seremos nós a ofertar um colar a uma menina num café, só porque nos ouviu e tem um olhos bonitos.
Beijinho.

lena disse...

Que linda historia. Gostei muito.
Beijinhos grandes.

Rita Isabel disse...

lindo texto adorei... eu tinha uma avó adoptiva que brincava sempre comigo e esteve sempre a meu lado... quando eu tinha 8 anos ela faleceu... e eu gritei até que a garganta me doesse... a casa estava vazia e eu já n tinha ninguém para brincar na minha perspectiva...... bjinhos

Se eu pudesse escrevia um livro disse...

Oh, que bonito :)

S disse...

Que história tão gira! Eu adoro velhotes e as suas histórias, sabedoria de vida e calma :) Acho muito feio o pouco valor que a sociedade lhes dá!
Bj S

Bekas disse...

Uma história tocante! Acho que anda tudo tão perdido hoje em dia, que já ninguém dá valor Às coisas realmente importantes!

Guinhas disse...

Amei..e verdade,esquecemos nos q tb ja foram jovem,vigorosos e tem ima vida recheadas de historias.

Imperatriz Sissi disse...

Tão lindo, tão lindo, minha querida. Adorei. Beijo.