sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ficas canhoto

Julie Andrews
Sentimentos negativos como a tristeza ou a raiva incrementam-me a escrita, trazem o mais profundo de mim até à ponta dos meus dedos. É-me indispensável vomitar tudo, como se de uma necessidade fisiológica se tratasse.
Uma catarse, que me apazigua, que me limpa.
Vezes houve em que tive que me conter. Não podia escrever, que isso era o reviver penosos momentos, sentir de novo as dores, verter mais uma vez as lágrimas.
É a escrita que faz de mim o que sou, que me faz ser, que me permite existir. Sou-lhe grata por me ter escolhido para preencher os seus espaços em branco, tudo para mim são letras e frases e orações e sílabas, recursos estilísticos e nomes. Tudo em mim verte, de dentro para fora, a denominação das coisas. E as coisas são tudo, o que me veste e o que respiro, o que penso e o que sinto. Traduzir emoções, coisas não palpáveis, para este código humano, é-me espontâneo e intrínseco, tem um quê de inato e nada mais. É que não me são precisas inspirações para tornar uma folha de papel branca na história de uma vida, de um sonho ou de um segundo. Consome-me. Sou sôfrega pelo dissecar significados. E mesmo quando estou feliz, de bem com a vida e sem tragédias gregas para entreter quem me lê, não consigo parar de escrever. Nem que sejam baboseiras, que também elas me salgam o quotidiano. E tenho rido muito, num estado de alma abençoado. Tudo é motivo para me desfazer em gargalhadas. E não troco isto por nada - nem pela profundeza dos textos que criei com os olhos inchados e o rosto vermelho de tanto chorar.
Ficas canhoto.

2 comentários:

Anónimo disse...

Figas, é como se chama aquele gesto em que se enfia o polegar entre o indicador e o médio, numa intençao de afastar má sorte, mau olhado, invejas e outros sortilégios nefastos antes que nos atinjam.. Para quem crer nisso...
Tomaz.

menina lamparina disse...

Sim, mas e então?