quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Minha Blair

Assim como o tom dourado da pele beijada pelo Sol se vai esbatendo até à palidez, também a Vida se vai descolando de nós a cada dia que passa. Os dias têm estado cinzentos por aqui. Como eu. Como a sombra que sinto escurecer tudo cá dentro. Como os meus olhos, noto-os a não quererem emanar luz. Ainda ando meio perdida, meio desorientada. Hoje saí de casa e o meu carro não estava no lugar do costume. Pensei que mo tinham roubado, entrei em pânico. Tinha-o deixado junto ao trabalho, ontem à noite. Tenho mesmo que ter o triplo da atenção a tudo - até a conduzir. Ia tendo dois acidentes por distracção minha. E só me apetece chorar. Podem dizer-me que é só um cão, que antes ela que uma pessoa da família, que foi melhor assim, que ao menos não teve um sofrimento prolongado... não me interessa. Não me interessa nada. Era um saco de ossos desajeitado, mal acabado e com umas pernas finas e desproporcionadas. Não era linda senão para mim. Era a Minha Blair. O que me custa sempre na morte é a perda do contacto, do toque, deixar de ouvir, ver e sentir o outro. Neste caso, é também não voltar a vê-la apoiada apenas nas patas traseiras enquanto pede atenção, mimo, brincadeira, um petisco. Não vou voltar a chamá-la só para ver aqueles olhões apontarem na minha direcção. Não vou tê-la a pedir colo, quando se apercebe de que já terminei a refeição. Não vou vê-la a morder o peluche laranja dela. Não vou ficar embevecida enquanto se tapa com a sua mantinha de malha polar. Nem vou poder aconchegá-la ao meu colo, as duas no sofá com uma manta por cima e o sono a embalar-nos com a tv. Não vou vesti-la porque treme com frio, nem levá-la a passear com a sua trela cor-de-rosa. Não vou dar-lhe o banho de que ela tanto gostava, nem apreciar a sua decisão de secar-se frente a um termoventilador. Não vou rir às gargalhadas com as asneiras que insistia em fazer, nem com a maneira sorrateira com que ela se tentava esconder. E a sacanice com que disfarçava tudo o que sabia fazer de mal...

Cumpriste o teu propósito, melhor que muitos humanos. Foste feliz e fizeste alguém feliz na tua passagem por este mundo. Tantos animais passam por cá sem saber o que é ser amado... Quando não queria sair da cama nem de casa, quando não queria tirar o roupão nem enfrentar o negro da minha vida, encontrámo-nos. Que connosco foi isso mesmo - um encontro mútuo. Estavas farta da tua vida miserável, com apenas meses de idade. E eu também, mas com 24 anos no lombo. E aprendemos a gostar uma da outra sem nada de acessório, sem padrões de beleza, sem futilidades. Nada de superficial em nós, só a certeza do gostar. Gostar uma da outra, gostar da companhia, gostar da Vida. Nunca conheci um animal tão meigo como tu. A rafeira mais bonita do planeta, com nome de personagem do Upper East Side. Foste mais mimada que muitos outros da tua espécie com dono. Foste muito amada no teu intenso e curto ano de vida. Marcaste bem o teu papel lá por casa e agora que não estás lá, dói tanto, pequenina... Sinto-me mesmo mal por não ter estado ao teu lado na clínica; se no consultório com o meu pai ficavas trémula de medo, ali não deve ter sido melhor. Mas lá puderam dar-te oxigénio e fazer-te exames que em Pombal não seria possível. Sei que as lágrimas não te trazem de volta, não te vou ouvir ganir quando chego a casa, chamavas-me para receberes a tua dose de mimos diária. Fico tão grata por teres aparecido na minha vida... Fica a saudade, para sempre. E a gratidão.

Ainda não tenho os resultados da autópsia, ainda não sei o que a fez partir tão precocemente.
Obrigada a quem se preocupou sem ridicularizar. Obrigada mesmo por perceberem que me dói, ainda que não sintam da mesma forma. Obrigada por respeitarem aquilo que, para muitos, é um capricho ou um devaneio.

6 comentários:

PinkWorld disse...

Compreendo genuinamente tudo o que transmites neste texto. Também eu tenho e terei sempre um amor incondicional pelos meus animais de estimação. Eu também tenho uma cadela que adoro imenso, e a ligação que nos une é sempre uma coisa inexplicável para outros de fora, que não a entendem. Só quem tem animais se apercebe do valor que eles têm para nós, e é sempre uma dor terrível quando eles partem. Beijinho, e força aí, eventualmente a dor passará, mas as lembranças, essas, felizmente nunca desvanecerão ;)

Liana disse...

:( lamento a perda. um abraço sentido.

Maria Inês Leiria disse...

;(

patyrendall disse...

Lamento imeeeensooo! Sei o que é perder um animal de estimação tão querido e que já fazia parte da família.

Tenho de te parabenizar pelo blog, apesar de saber que é a hora nem o local para tal.

Um beijo

menina lamparina disse...

É disso mesmo que se trata - de amor incondicional.

Já soube que foi uma pancreatite que a matou, e sabê-lo, dissecando bem o que a poderia ter causado, ouvindo pormenores sobre o estado dos órgãos dela, não me trouxe menos dor. Foi como se passasse a acreditar realmente na morte dela. Fui obrigada a aceitar.

Em tantos anos de carreira, o meu pai só tinha tido contacto com um caso destes. Geralmente, é fulminante, os cães não resistem.

Obrigada pelos mimos, obrigada Paty pelo elogio.

Beijinhos*

menina lamparina disse...

...e sim, graças a Deus que as memórias não se vão com a partida de ninguém! :)