terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

quando o outro não sabe tudo o que vemos nele

Tenho um amigo, por quem já estive apaixonadíssima, que não sabe tudo o que é.
Não tem consciência de quão bonito é, não imagina como é interessante, não faz ideia de como o vejo.
É um gajo que tem a minha admiração - e olhem que isto é difícil - por ter uma capacidade de trabalho impressionante e mesmo tendo que lidar com imensas responsabilidades, não perde a juventude, o riso, a leveza.
É um puto adulto, não larga os ténis e tem uma voz com que me casaria. É inteligente e antenado, sabia usar o Spotify quando eu ainda não fazia ideia do que raio era aquilo. Gosta de viajar, consegue concretizar ideias, arrisca e é naturalmente simpático. Tem entusiasmo por coisas que me são indiferentes e mesmo assim, não tem pudores em manifestá-lo. Não tenta impressionar-me e isso é tão bom. É divertido, a idade não lhe adicionou o factor cromo. É um amor de pessoa, carinhoso e atencioso. É paternal, tem uma pinta descomunal e sabe fazer tudo. Como todos os homens hetero que conheço, tem dificuldades em expressar-se no que ao plano sentimental diz respeito, mas é transparente. Pelo menos para mim.
É tudo isto, mas tem um defeito enorme: minimiza-se, diminui-se pelo meio em que se insere. Acho que ele acredita na sua desvalorização, como se tivesse que se contentar com o que dizem que ele é e com a vida que criou. Então permite-se ser menos, vivendo um quotidiano que não o satisfaz. Relaciona-se com pessoas muito abaixo do nível dele. Prende-se ao que não o prende.
Nunca demos certo por isso mesmo: ele achou e decidiu que eu merecia melhor. O que ele não sabe é que teria sido o meu melhor. O tempo passou, a raiva também e ficámos amigos. Gosto mais dele agora, claro, que a paixão descontrola e turva a visão. E gostava que ele se visse como eu o vejo.

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