quarta-feira, 7 de setembro de 2016

calo o gemido

Olho à volta e não sinto que faça parte disto. Deste rebanho. Parecem ovelhas, parecemos ovelhas, vamos todos na mesma direcção, apesar dos diferentes destinos. Vamos todos de pé, a carruagem cheia e os olhares tão vazios. Vão todos sozinhos, vamos todos sozinhos, apesar de estarmos no meio de uma multidão. Apesar de estarmos rodeados de gente sozinha. 
A maioria vai de smartphone nas mãos, que é mais fácil comunicar através de um écran do que sorrir para quem está ao nosso lado. Auscultadores enfiados nos ouvidos e assim ninguém mete conversa. Aquele ali pode estar sentado ao lado da mulher da vida dele, mas é no tinder que procura o match perfeito. 
Abrem-se as portas. Saem em manada. Saímos em manada. Seguimos pelo mesmo corredor atafulhado de gente, atafulhado de pessoas sozinhas que seguem num aglomerado populacional que nem permite ver a cor do chão. 
Saio do metro e tenho que parar nas escadas. Já vejo o céu daqui. Preciso de respirar. Não era aqui que queria estar. Não foi este o quadro que pintei para o meu futuro. A minha vida adulta não era desta cor nem tinha este aspecto. Será que tenho que passar por aqui para lá chegar ou estou a desviar-me completamente da rota? Ainda não são dez da manhã e em vez de estar no epicentro da confusão deveria estar a arrumar a mesa do pequeno-almoço que preparei de véspera para os miúdos. 
Tento esconder estas lágrimas por detrás dos óculos de sol, saco um cigarro que fumo rua acima. Eu não quero ser um deles. Calo o gemido, lembro-me da força que guardo dentro de mim e avanço. Os passos pesam-me. Respiro fundo e entro. Para quê?

2 comentários:

Just Fantasy disse...

Adorei, o texto, o blogue. É bom essa observação. Mesmo fazendo parte desse quotidiano quase autómata, é necessário, no mínimo, ter consciência dele. Lucidez acima de tudo, assim aprende-se (vive-se, aprende-se). Há tempos fiquei surpreendida com uma imagem/cartoon, várias pessoas iam no autocarro e todas pensavam que eram as únicas conscientes do cenário geral e olhavam os outros como autómatas. Realmente, isso confundiu-me. Seguimos todos com a manada, parecemos da manada, mas se calhar todos, ou muitos, sentem esse estilo de vida condicionado e condicionante e lidam com isso sozinhos. Parece-me que os seres humanos estão insatisfeitos, parece que seguem algo que eles criaram e que já os ultrapassou, como por exemplo, o ritmo de vida destes tempos modernos.

Lady Lamp disse...

Obrigada, Just Fantasy. Fico feliz por saber que gostaste e mais feliz ainda pela partilha desse ponto de vista. Talvez seja mesmo isso e a manada não seja totalmente homogénea e inconsciente... beijinho*