quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Foi sem querer.

Foi sem querer.
Desde pequenina, fui aprendendo. Fui-me formando. Fui deixando que a armadura engrossasse, fui-me habituando a desconfiar - até dos mais próximos. Fui sendo levada a não abrir a porta a qualquer sorriso, a não dar de mim só porque sim. Desde pequenina, desde muito pequenina mesmo. Quando dei por mim, já era a antipática da família, a mandona da turma, a má. A ternura foi ficando reservada apenas para momentos sagrados. A doçura, aplicada apenas em pequenas doses. Não fui eu que quis assim - aconteceu assim. Aprendi a disfarçar fragilidades, a não gostar da vulnerabilidade, aprendi que a defesa é o melhor ataque, já que este planeta é maioritariamente povoado por maldade. Aprendi que o mundo é dos fortes e que não podemos dar espaço a fraquezas. Se as mostrarmos, alguém se há-de aproveitar da situação para nos pisar mais um bocadinho. Dei por mim a saber chorar sozinha no meu quarto e a encarar a rua de sorriso nos lábios e olhar altivo, a esconder-me em mim e esta semana, percebi que esta minha maneira de ser áspera afecta os outros. Já tinha uma leve noção, confesso. No entanto, como não dou grande importância ao que os outros dizem ou pensam (outra característica de quem se torna superficialmente frio), julgava que as minhas palavras não tinham tanto impacto como isso. Mentira. Podem ter.

Numa aula do curso que estou a tirar, usei uma expressão sem importância para referir uma certa falta de gosto que tenho pelo estudo como a maior parte das pessoas o encara. Dizia que só gosto de estudar aquilo que me apaixona, que não sou de marrar por obrigação. "Nunca gostei de estudos sérios", disse, numa frase pouco pensada e extremamente coloquial. Todas as pessoas que fizeram uso da palavra depois da minha intervenção usaram a mesma expressão: "Estudos sérios, como referiu a Ana"; "Estudos ditos sérios, como disse a Ana"; "Tal como a Ana afirmou, estudos sérios". No caminho de regresso para casa, percebi que as pessoas ouvem o que digo com mais atenção do que eu própria verto as palavras. Tenho uma voz grave, bem colocada, marcante. Isso ajuda, claro. Mas a questão é que saí dali consciente de que talvez devesse pensar mais no que digo. Dizem que as palavras têm poder, certo?

No fim-de-semana passado, sofri sozinha as consequências do que disse sem pensar, num laivo de raiva. Disse-o convictamente, como sempre disse tudo. Não sei comunicar sem ser assertiva ou sem acreditar no que afirmo. Não há doçura nas minhas palavras, mesmo quando amo o meu interlocutor. E de tão dura ser, afasto, magoo, irrito aqueles que queria ter perto de mim. Gostava de ser melhor, de emanar mais amor, verbalizando-o sem medo de me colocar numa posição desfavorável. Gostava de saber como.

3 comentários:

Anónimo disse...

"aprendi que a defesa é o melhor ataque"...não seria ao contrario?

Ariadne disse...

"Eu confio" é um texto sobre a importância de escolher um suplemento alimentar de confiança, de uma marca que aposta em estudos científicos para demonstrar a qualidade dos seus produtos. Visita o blogue para descobrires mais sobre a Pharma Nord e o BioActivo Q10.
O Histórias de Ariadne é um blogue pessoal em que podes encontrar textos sobre assuntos farmacêuticos, histórias pessoais, dicas/truques/artigos para alcançar o sucesso (seja pessoal, bem-estar ou profissional), fotos das minhas gatas (yup, sou uma daquelas pessoas que ama gatos e é viciada em café). Dá uma espreitadela, pode ser que até gostes do que por lá partilho.

Beijinhos
Ariadne
http://historiasdeariadne.blogspot.pt

Ana Catarina disse...

nos últimos tempos também aprendi a ser assim também. fria, prática, directa, desconectada. adaptei-me a isso. os outros é que não!