quinta-feira, 12 de junho de 2014

timing

Parece dramático quando o digo, mas é apenas uma teoria baseada em factos reais: não sei se devia ter nascido. Eu e a minha mãe íamos morrendo no dia em que nasci. O parto foi complicadíssimo, eu tinha o cordão umbilical enrolado ao pescoço em três voltas, mal respirava e os meus batimentos cardíacos não eram constantes. Aliás, o electrocardiograma não apresentava linhas contínuas em altos e baixos, mas sim alguns pontos dispersos. Depois de algum esforço, lá sobrevivemos. E de certo modo, é isso que continuo a fazer. A sobreviver.
Mas quem deve cá estar, sente que aqui pertence. Eu nunca senti que fazia parte disto. Sempre me senti uma outsider, ainda que exista um núcleo reduzido de pessoas gostem verdadeiramente de mim e sintam a minha falta.
Quem deve cá estar, serve para alguma coisa. Sente-se útil, sabe que o seu potencial vai ser reconhecido e utilizado para alguma coisa boa.
Quem deve cá estar, não chega sempre no tempo errado à vida das pessoas que marcam. Não marca vidas para depois se ir embora.
Tenho um problema de timing que me acompanha desde que me lembro de mim. Como se fosse um estorvo, um inconveniente, uma pedra no sapato.

Dentro de algum tempo farei 29 anos. Acho que isso me está a bater. Tinha tantos sonhos, tantos planos e isto correu tudo de maneira diferente. Provavelmente, porque não devia ter nascido.

9 comentários:

Manias de Mulher disse...

Quem não devia ter nascido...não nasce! Por alguma razão sobreviveste a todo aquele sofrimento. Talvez ainda não tenha chegado a tua altura, o teu momento em que sentes que fizes-te algo e te orgulhas disso. Há pessoas que levam uma vida inteira à procura desse momento. Temos de deixar de procurar e passar a viver, porque é a viver que se vive! E são as vivências que se recordam e ficam na memória. :)

Isabel Simões disse...

Credo! Adoro ler tudo o que escreves...mas este post assustou-me. Sobretudo por vir de alguém tão jovem, com a vida toda pela frente! Não queiras apressar as coisas, o que tiver de ser teu há de vir ao teu encontro. Até lá vive o único momento que importa viver - o presente. Nada de perder tempo com coisas que já passaram e não é possível mudar...e nada de ficar à espera do futuro, porque esse ninguém pode tê-lo como certo. E outra coisa... Se tu não tivesses nascido, quem é que ia escrever o Lamparina??? Quem é que ia fazer comigo o meu primeiro passatempo nos primórdios do Kabukis? Hein?

Marias Choc disse...

oh...tão pessimista. Nem queria acreditar no que lia. Todos temos momentos dramáticos na vida, se tudo fosse um mar de rosas não teria piada.

Bárbara disse...

Medo, medo... mas a verdade é que também me descreveste. Nunca soube expressar a mim mesma o que sentia, o que sinto.
Apesar de parecer muito estranho...obrigada Ana!

E chegaste à minha vida no timming certo. O teu texto foi um "abre-olhos".

ML disse...

Ora bem se sobreviveste és uma lutadora e é isso que tens de continuar a ser!

Força, os teus sonhos ainda não se realizaram mas pode faltar um bocadinho assim pequeno, por isso continua a lutar e um dia vais ver os teus sonhos realizados!

Beijinho!

Tamborim Zim disse...

Minha querida menina Lamparina, é ÓBVIO q deves celebrar efusivamente não só cada aniversário teu, mas cada dia. Transpiras qualidade de escrita, cabeça, sentimentos e mundividência, e pelo que nos contas já fizeste tantas coisas de que gostaste! Mas o mais importante é tentarmos estar sempre do lado do bem e sermos demandantes incansáveis da felicidade, da aventura, da fruição. E quem nunca se cansa, e várias vezes, ao longo da vida? Qdo isso acontece é exorcizar, é escrever, é fiarem recato, é o que se quiser para percebermos, depois, que o nosso sol interior brilha forte outra vez. E és tão solar! Abrir as janelas, deixar o s, entrar, como preconizava o avô Maia :) Mil beijinhos

Portuguesinha disse...

Todos passamos pelo mesmo, a sua vida não é diferente de nenhuma outra que por cá anda. Aliás é mais igualzinha do que consegue alcançar, pelos vistos.

Deve ser a crise dos 29. Passa aos 30, regressa por volta dos 35... lide bem com isso e tente ver as coisas de forma optimista. É só o que me parece lhe faltar.

Ana Catarina disse...

Adoro os teus textos... és mesmo especial menina Lamparina! <3

Peppy Miller disse...

A vida ainda tem à tua espera o verdadeiro motivo pelo qual sobreviveste, nunca te esqueças disso ;)