quinta-feira, 8 de maio de 2014

Isto é quase um manifesto.

Brigitte Bardot
Como se nunca me encaixasse em lado nenhum, mesmo que faça parte de alguma coisa. Sempre foi assim em todas as áreas da minha vida e talvez o problema esteja em mim. Deve estar em mim. Às vezes, tento enganar-me e justificar os outros, atribuindo as culpas ao meu tão afamado mau feitio, mas acabo por concluir sempre o mesmo: que não se trata de ressabiamento. A culpa é da injustiça. E eu não suporto injustiças, seja eu o alvo delas ou não. Nunca suportei. Espero nunca vir a tolerá-las.
Na minha família, sempre me senti assim também. Não no núcleo mais chegado, óbvio, mas no restante grupo de pessoas com quem tenho laços sanguíneos. Se para um dos lados da árvore genealógica que integro sempre fui a filha dos que optaram por viver na província e que horror, sair da linha!, para o outro, sempre fui uma privilegiada.
Por outras palavras, de um lado julgam-me menos urbana e mais dada às lides da ruralidade, como se por ter um pai veterinário que optou pela vida fora de Lisboa não só pela experiência profissional que tal decisão lhe proporcionaria como também pelas vantagens financeiras, acabasse por me transformar numa menina da Ribeira do Sado, daquelas que têm carrapatos atrás das orelhas. Como se vivesse no fim do mundo, isolada, qual nativa de uma tribo por descobrir, instalada nos confins de um sítio que não aparece no google maps. A verdade é que devido a esta escolha dos meus pais, tive acesso a uma cultura muito rica, característica de um Portugal esquecido e desprezado de que muito me orgulho e que amo profundamente. E não contenho alguma troça quando desse mesmo lado da família, surgem questões sobre a origem dos ovos, por exemplo – houve quem julgasse que eram fruto de um qualquer artifício fabril, dado que têm códigos numéricos na casca.
Do outro lado, sempre senti que era tida como alguém privilegiado. E se até concordo com a ideia na generalidade, porque o sou de facto, porque tenho um Deus que constrói o caminho que vou seguindo, que torna os meus sonhos em objectivos concretos e que me rodeia de pessoas especiais e de acontecimentos preciosos, não poderia ser mais discordante quando o termo é utilizado de um modo enviesado e revestido de um quê de preconceito. Recordo que preconceito engloba toda e qualquer ideia baseada em fundamentos desprovidos de seriedade ou imparcialidade. Se ser privilegiada significa nunca ter passado fome, concordo. Sou. Mas se ser privilegiada for sinónimo de ter tudo de mão beijada, aí começamos a afinar. Na verdade, nunca tive jeito para coitadinha e pode ser esse o motivo para que não me vejam inteira. Também não partilho todas as dificuldades com que me vou deparando, pelo que a minha existência pode parecer, a olho nu, um rol de alegrias e um oceano de descontracção.
Sempre balancei entre a menina que não faz mal a ninguém e a mulher forte, nunca fui uma daquelas pessoas que granjeiam compaixão. E como não me dou com ninguém por conveniência, não são poucos aqueles que ficam de fora da minha guest list. Não me interessa o que cada um tem, o que me pode proporcionar nem que vantagens me traria certo relacionamento. Cá dentro, as pessoas valem pelo que são. E pelo que são comigo, claro. Assim, desinteressadamente, vou criando laços e nós que às vezes se tornam mais fortes que os sanguíneos. A minha melhor amiga não é uma pessoa cheia de dinheiro, não tento aproximar-me do filho de uma personalidade influente nem conviver com pessoas que valorizam a ostentação. É o meu coração que acolhe os outros corações e nunca há espaço para ponderar a utilidade de cada um no meu caminho. E os outros, aqueles que trazem à superfície de mim o laivo de ressentimento que não consigo evitar ainda, hão-de compreender a grandeza de se viver são. E eu hei-de ser suficientemente madura para sorrir, com piedade.

4 comentários:

Anónimo disse...

Como me revejo neste texto. Detesto que achem que sou privilegiada, quando tudo o que consigo é com o meu esforço e mérito. Se calhar é por isso que dizes, é por não ser daquelas pessoas que se está constantemente a queixar da vida e de tudo à volta. Porque em vez de me queixar do que há de mau ou errado agradeço o que tenho de bom e espero sempre conseguir melhor.
Não preciso de fazer amizades convenientes para obter seja o que for. Até porque se conseguirmos com o nosso mérito sabe bem melhor. Não gosto de pessoas interesseiras. Prefiro as verdadeiras.

Tive que comentar, este post relata muito o que se passa com as pessoas hoje em dia. Em que uma palavra, amizade ou gesto verdadeiro já não conta. Conta se houver algum interesse.

Gostei muito ** beijinhos grandes para todos menina **

Carla Costa

Tamborim Zim disse...

E o nosso não lugar querida menina Lamparina, afinal, o q significa Utopia. Quem e complexo nunca estará popularmente bem ou sera popularmente bem visto em todos os lugares e situações.mE q assim seja sempre! Brinde a ti 😊

marlene disse...

É um grande privilégio ter-te como Amiga...obrigada, tu és especial...

beijito

menina lamparina disse...

Carla, é muito bom sentir que não somos a única pessoa no planeta a sentir que algo de errado se passa com o resto da população mundial...
Beijinhos também para todos desse lado.

Brinde a ti também, Tamborim!! :) Não nos encaixarmos em lado nenhum é cansativo, mas sem essa evidência, provavelmente não nos poderíamos considerar seres genuínos, não é? :)*

É um grande privilégio para mim ter-te como Amiga, Marlene. :)*