segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Estou um bocado chata, hoje. Deve ser da chuva.

Keira Knightley
Desde os dezoito anos que exerço o meu direito de voto. Desde os dezoito anos que cumpro o meu dever de voto. Não votar seria insultoso e negligente. Faço-o não só para obter a legitimidade necessária para criticar o que vai sendo feito do meu país, do meu concelho ou da minha freguesia, mas também porque não me imagino a suportar o peso da responsabilidade de não ter participado activamente naquela que é a acção mais elementar para a construção do mundo que receberá os meus descendentes. Claro que contribuo para esse futuro de outras maneiras, que há muito para fazer, muito por onde trabalhar. Contudo, não me sinto no direito de desonrar as lutas de quem me antecedeu e me concedeu, sem saber que eu viria a nascer, este poder de contribuir directa e activamente nos destinos da minha terra com a minha vontade, a minha opinião, a minha posição política. Voto como quem dá o seu parecer. E reflicto imenso antes do dia de ir às urnas. Penso em tudo: nas várias possibilidades que a minha cruz pode gerar na vida real ou na forma como gostaria que as forças partidárias se equilibrassem dentro dos órgãos autárquicos. Dou por mim a fazer contas de cabeça para tentar adivinhar quais serão os resultados e perceber como devo votar, de que forma serei mais útil à ideia de Democracia que criei dentro de mim. E raramente sou surpreendida, confesso. As minhas contas de mulher de letras batem certo e acabo sempre em paz com o meu voto. Mas mesmo assim, passo o dia num nervoso miudinho, numa ansiedade insuportável. Não falo noutra coisa e nem os mais lindos sapatos me prendem a atenção. Quando se aproxima a hora de saber quem ganhou e quem perdeu, as mãos começam a transpirar e os minutos passam devagar. E não, não é preciso fazer parte de uma lista para sentir tudo com esta intensidade. 
Talvez por ser assim, tão preocupada com estas coisas sérias e sem piada nenhuma, fique espantada por chegar a casa, ir espreitar o facebook em busca de comentários alusivos às eleições e deparar-me com sucessivas publicações sobre o reality show da TVI(*). Já não bastava a dor da elevada abstenção (e sim, há formas menos passivas de protestar) e ainda levo com esse balde de água fria. Depois venham cá dizer-me que "os políticos são todos a mesma trampa" e que "o país não anda para a frente". Fui deitar-me cheia de vergonha e a ponderar dar razão aos que dizem que o povo quer é pão e circo.

(*)O que vale é que não eram a maioria.

1 comentário:

Sara Cehennemden disse...

Revejo-me a cada palavra desse texto!