terça-feira, 25 de setembro de 2012

Os laços sanguíneos não fazem com que amemos mais.

Audrey Hepburn
A mãe da Fátima era a melhor amiga da mãe da Ana Cândida.
A mãe da Fátima era a melhor amiga da minha bisavó, portanto.
A Ana Cândida morreu muito cedo, com 45 anos, por isso não conheci a minha Vó Nita.
A mãe da Vó Nita, minha bisavó, viveu até aos 110, pelo que ocupou o vazio de não ter uma avó materna. Ela foi a minha avó. Tinha eu apenas seis meses de vida quando inaugurámos uma vivência juntas. Vivemos na mesma casa até que o peso dos anos a esmagasse de cansaço e Deus decidisse que o lugar dela era no Céu. Já vos falei dela vezes demais, muitas vezes, tantas e tantas vezes.

Hoje quero falar-vos de outra pessoa. Uma que ficou aqui e que é mais minha avó que os outros que podiam sê-lo mas não souberam ou não quiseram sê-lo na totalidade. Não me compreendam mal, eu adoro os meus avós todos, mas isto de ser a única neta na província não deu muito jeito para que as relações se firmassem em algo mais que memórias da infância. Fui a primeira criança da família e esse estatuto fez de mim a neta-orgulho: tão linda, tão inteligente, tão cheia de potencial, a primeira a tirar a carta, a primeira a ir para a Faculdade, a primeira a namorar, a primeira a trabalhar... e pouco mais. O meu avô paterno não pôde ser mais, já que também nos deixou demasiado novo. Os que cá ficaram... bom, longe da vista, longe do coração, não é? E sempre senti muita falta de ter os avós perto. Vi as outras crianças a conviverem de perto com os seus, nos almoços de Domingo, nos dias em que os pais não os podiam ir buscar à escola, nas mais simples actividades do quotidiano. Não tive isso, não tive os meus avós a morar na mesma rua, nem na mesma cidade, nem no mesmo concelho, nem no mesmo distrito. Tinha a minha Vó, mas ela foi-se embora quando ainda era uma adolescente.

Então ficou cá a Fátima. A tia Fátima, a melhor amiga da minha Vó Nita, que não conheci. E apesar de não termos laços sanguíneos que façam de nós família a sério, ela é mais minha avó que os outros. Porque me conhece para além da criança que fui, porque me mostra que me ama, porque se preocupa comigo e eu com ela. Não falamos ao telefone apenas nos aniversários e no Natal. Recordo-me dos tempos em que vivi sozinha, ainda a estudar em Coimbra, em que ela me ligava toda a santa semana, só para saber se estava bem. Ela é minha avó. E conversamos imenso, sobre tudo e sobre nada, porque ela só é equiparada a uma avó pela idade que tem, já próxima dos 80.
A tia Fátima não está bem, está cada vez mais velhinha e eu atenuo a dor de a ver envelhecer contra a vontade dela e contra a minha também, dizendo apenas que está a ficar xexé. Vou com ela ao neurologista, divirto-a com um passeio pelas lojas de que gosta e faço-a rir numa conversa que acompanhamos com um café e um bolo numa esplanada qualquer, brinco com a situação, mas sinto o medo a escurecer-lhe os dias. Ouço as histórias que me conta, do tempo em que era a mulher forte e independente que sempre lutou para ser: usou calças quando era obrigatório que uma senhora vestisse saia, tirou a carta de condução quando só os homens se sentavam ao volante, não quis casar nem ter filhos numa época em que ser solteira e ganhar o seu próprio dinheiro não era a melhor opção. E vê-la chorar, doce como mais ninguém, pedindo desculpa por incomodar, dói-me. Dói-me quando me diz "Ana, se eu morrer quero que fiques com tudo o que é meu". Dói-me senti-la sozinha, sem saber o que fazer, sem poder contar com a família de sangue que está longe, à espera de que o pior aconteça. Dói-me que envelhecer não seja uma coisa boa.

5 comentários:

That Girl disse...

Eu penso que envelhecer seja uma coisa boa, principalmente quando há uma vida preenchida com a da "tua avó" Fátima ;) pelo que me contas ela sempre foi muito à frente no seu tempo e acredito que tenha vivido coisas bonitas e memoráveis e tem imensas histórias para te contar :)
Eu penso que envelhecer seja uma coisa boa sobretudo quando se recebe muito amor e quando se tem alguém como tu ao lado. E sim, a nossa familia não tem de ser de sangue e tu sabes bem isso :)

(já agora que também vais a um casamento dia 6, que me sugeres para indumentária? Tendo em conta que sou sou como tu eras há 20kgs atrás xD)

teardrop disse...

O título diz tudo. Ultimamente tenho pensado nesse assunto...

coisas da Nadya disse...

Um lindo texto ! Eu sendo uma de 8 netos , os meus avós paternos sempre tiveram amor para dar . Não , não me iam buscar à escola , nem os via sequer todos os meses , mas sempre foram os avós mais amorosos do mundo . Um casal que perto dos 80 anos ainda se ama , e sentem ciumes um do outro ...
Infelizmente a minha avó materna morreu , tinha eu 9 anos , por isso nem da cara dela me lembro , e o meu avô materno ( avô de 6 netas ) não é uma pessoa nada dada aos afectos....


Tenho pena que as pessoas envelheçam , mas a tua avó Fátima teve uma vida boa , e teve ainda uma neta emprestada que lhe enxeu a vida.

um bjo

Paula Sofia Luz disse...

Lido muito mal com o envelhecimento dos meus, Ana. Daqui a pouco faço 40 anos (!!!) e não há meio de o aceitar e de o encarar. Por isso, só te posso mandar um beijo*

Tamborim Zim disse...

:) Estar presentes e tornar as coisas o mais doce, melhor e solar possíveis. Tenho de aprender a fazê-lo melhor:)