quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Momento Martin Luther King

Natalie Portman and Zoe Saldana
Espero que quando estiver sentada à mesa com os meus filhos, aproveitando o fluir da conversa depois de um saboroso jantar, e num laivo de memórias antigas lhes contar que em 2012 ainda havia uma professora, que por acaso era directora de turma da tia deles, que se referia aos negros como pretos sem qualquer pudor, dizendo que cada vez se viam menos europeus, já que até a eleita para Miss França tinha sido uma preta, afirmando que Hitler queria acabar com os pretos e com os deficientes e dizendo ainda que se achava boa, mas que Deus a livrasse de ser preta, eles fiquem incrédulos porque este género de atitudes e comportamentos não fazem parte do seu presente.
No presente dos meus filhos, julgar as pessoas pela cor não fará sentido. Porque a única raça de humanos que conheço - a raça humana - já terá compreendido que "o essencial é invisível aos olhos". Nesse tempo, onde eu já estou mas a maioria da humanidade não, não se discriminam pessoas pela pele, mas pelos seus comportamentos. Nesse tempo, sabemos que o falar alto não é exclusivo dos pretos, mas de pessoas mal-educadas, sejam elas negras, brancas ou mestiças como eu. Nesse tempo, a raça humana já terá percebido que não há mais que mestiços, afinal. Que até o meu pai, branco e alfacinha de gema, português mais português não há, é fruto de uma mistura de povos que andou por cá antes de Afonso Henriques se lembrar de fazer deste rectângulo um país. Nunca ouviram falar em mouros, visigodos e coisas que tal?
Desculpem-me por ser a portadora de tão nefasta notícia, mas não existe essa treta da raça pura. Somos humanos, não somos como os cães, cujos temperamentos podemos (ainda assim com uma certa margem de erro) catalogar segundo a raça. Nós somos todos da mesma raça. Os meus filhos saberão isso. Não vão atravessar a estrada para não correrem o risco de ser assaltados por um cidadão de etnia cigana. Não vão olhar com desconfiança para quem não tem o mesmo cabelo, a mesma tez, a mesma forma de vestir que eles.
Os meus filhos hão-de ser como a mãe, que despreza a falta de educação, venha ela de quem vier. Vão ser como a mãe, que assume como único preconceito a ausência total de boas maneiras e de respeito pelo próximo. Vão ser como a mãe, que nas diferenças vê riqueza.

6 comentários:

A Bomboca Mais Gostosa disse...

Os meus também vão ser como eu, tal e qual os mesmos ideais que descreveste.

Imperatriz Sissi disse...

Como já temos falado, o único racismo que tenho é contra a falta de chá. Tudo o preconceito apoiado na cor é estúpido. Mas confesso que acho pior chamar a alguém " de cor" ou "negro" usando eufemismos como se a etnia da pessoa fosse uma doença ruim, do que "preto". Que é afinal, uma cor com muitos tons...

menina lamparina disse...

Citando o meu pai, "para lá da imprecisão cromática da expressão", o termo "preto" é socialmente considerado como pejorativo.

Do meu ponto de vista, é uma cortesia e uma delicadeza utilizar o termo "africano" para nos referirmos a pessoas africanas.
No entanto, se quisermos particularizar pela mera tonalidade da pele, o termo "negro" não é pejorativo nem ofensivo para quem o escutar, especialmente se estiver incluído no grupo particularizado.

Digo-o como latino/ibérica mestiçada de sangues mouros, nórdicos e africanos (de resto, como a maioria do nosso povo).

"Pretos", "monhés", "branquelas", "amarelinhos" não devem nem podem ser adjectivos que se usem numa sociedade sem preconceitos raciais.

Ainda assim, há contextos e contextos. Claro que em situações informais, de brincadeira e com respeito, há quem não leve a mal.

Basicamente, ou é uma grande calinada ou um assumido gracejo.

Quanto ao "de cor", concordo contigo, Imperatriz. O eufemismo é escusado, bem como a atitude "coitadinho do pretinho" ou "ele é pretinho mas é inteligente". A ignorância é atrevida.

Fiona disse...

Sinceramente, e depois de tantos casos que já tivemos na nossa história, tenho pena que ainda existam pessoas tão preconceituosas contra outras pessoas apenas porque têm cor, credo ou orientação sexual diferente.

Ana Formigo disse...

infelizmente as coisas ainda são como são agora, mesmo, infelizmente
beijo ~

Maria disse...

meu deus!! nem consigo imaginar o que deves ter pensado no momento em que a ouviste a falar. eu neste momento tenho grande dificuldade em lidar com esse tipo de atitudes... nunca deixo de me surpreender com a ignorância e falta de respeito que algumas pessoas demonstram... honestly...

bjo**