sexta-feira, 9 de março de 2012

da falta que não fazemos.

Alicia Keys
A morte não me assusta. Rectifico: a minha morte não me assusta. Atemorizam-me apenas os fins das minhas pessoas. Sempre tive mais medo de envelhecer que de morrer. Deixar de ser eu como me conheço é mais difícil de aceitar que o simples desaparecimento. Talvez a certeza de uma vida eterna pese nesta perspectiva. Na morte, o que me assusta é ser esquecida. Não deixar legado. Nada que faça o mundo lembrar-se de que passei por cá.
Claro que no meu funeral hão-de chorar a minha partida. Os meus e não só. Hão-de aparecer curiosos, carpideiras e coscuvilheiras. Sei que sim. Sei que vou deixar saudade. Mas vejo que a vida continua, percebem? O planeta não pára porque alguém parte. O trânsito não descansa, as lojas não fecham, as guerras não cessam. O quotidiano de quem sente a dor da perda continua vivo. Não deixa de existir vida porque alguém morre. Logo após uma cerimónia fúnebre, há o regresso à vida. Vamos comer qualquer coisa, vamos tomar um banho, trocar de roupa, tomar um café, voltar ao trabalho.
Apercebi-me realmente de tudo isto depois da morte trágica de alguém jovem que me era próximo. Nem o choque, nem a dor ou a tristeza afastaram os seus amigos da sua rotina. E na mesa do café, nem uma cadeira vazia mostrava a ausência de quem faltava. É assim. Lá porque morremos, não quer dizer que coloquemos um ponto final em quem cá fica. Quem perde um amor, encontra outro. Quem sente a falta de um amigo, procura outro para abraçar. E o mais assustador de tudo isto é pensar que talvez não faça assim tanta falta...

5 comentários:

Pipoca dos Saltos Altos disse...

:( as minhas pessoas trago-as no peito. São poucas, mas não imagino a minha vida sem elas. Um beijo para ti

Tamborim Zim disse...

Ai Lamparina...arreda!;) Isto hoje está durex, hum? Mas olha, claro q quem vai faz sempre falta. Especialmente, decerto, aos seus. Mas a falta maior é a da existência p quem deixa de a ter. p quem perde a viagem, p quem se apeia sem poder regressar ao rumo da aventura. Eu tenho pavor da morte. Especialmente dos meus, mas tb da minha. Lido mal com a finitude, e desconfio q, por tanto a temer, me vá habituando à dita...Qto ao legado, sabes, tb tinha um bocado essa intuição. Tv a idade (cof cof, do alto dos meus 35 rsrss) me esteja a fazer relativizar isso. O maior legado pode ser o subjectivo: uma ou outra risada q tenhas provocado, uma ou outra moção, uma defesa, uma ideia. Essencialmente, o teu ppo prazer de viver, de demandar, a tua arte particular de estar aqui. Talvez seja esse o fundamento maior, e desculpa a extensão...(Mas foi só pq o teu post foi muito bom e muito interessante.)

Tamborim Zim disse...

E voltando à maravilha das coisas leves: este modelito da Keys está um luxo de lindo!

mari disse...

pois ... atrozmente verdadeiro ...
**

menina lamparina disse...

Também não imagino a minha vida sem as minhas pessoas, Pipoca! Outro para ti*

Muito bom e interessante também o teu comentário, Tamborim. Sei que tens razão, mas há alguma espécie de vaidade que me diz que isso é pouco. Ser história contada, como os meus avós, é pouco. Queria deixar qualquer coisa feita. Bem feita. E sim, o modelito de Alice Chaves é um mimo! :D

Mesmo, mari. Tão cru que impressiona... :*

Beijinhos*