sexta-feira, 17 de junho de 2011

crise de muito antes da meia-idade

Carmen Kass
Não sei que caminho vou ter de percorrer, nem que tropeços me farão querer recuar, mas saber o meu destino descansa-me. Às vezes, muitas, tantas vezes, tenho medo de me perder, embrenhada na teia de medos que prende tantas vezes. Ainda assim, páro, mas não recuo. "Viver não custa, o que custa é saber viver", dizia a minha vó, provavelmente todos os dias. Eu não percebia nada daquilo, porque raio havia de ter que saber viver se a existência não é um trabalho nem uma obrigação? Menos que isto, que o raciocínio ainda não tinha voz nem era verbalizado dentro de mim. Só não percebia e pronto. Encolhia os ombros e continuava a tocar piano e a cantar para ela, a fazê-la rir do alto dos seus noventa e muitos anos, a abraçá-la e a comer os acepipes que me impingia. Meu Deus, que saudade. Como se pode sentir tanta saudade de umas mãos envelhecidas, enrugadas e deformadas pelo passar do tempo? Dizem que ele cura tudo, mas sinto cada vez mais a sua falta. Principalmente neste momento incerto que atravesso, em que as decisões se sobrepõem à minha vontade de escolher. Tudo é mais simples quando nos deixamos levar, que o peso da responsabilidade acaba por se esvair num caudal selvagem que nos atira violentamente para qualquer margem. Às vezes, dizia eu, muitas, tantas vezes, tenho medo de desperdiçar todo este potencial anunciado, que quem tem jeito para muitas coisas acaba por se dispersar. E se não for suficientemente focada? E se ninguém me aproveitar? E se não conseguir ter o sucesso que espero, que o mundo espera que eu construa? Depois o meu cérebro entra em modo de auto-protecção e recorda-me da minha tenra idade. Diz-me que ainda estou no princípio de tudo, que tenho tempo para dar os passos todos e que não preciso de tanta preocupação. A ansiedade não resolve nada porque a acção é que importa. E então, enquanto não posso agir em prol da resolução do que me faz ter ataques de pânico, tento pensar noutras coisas, como no verniz que melhor condiz com os sapatos que quero calçar mais logo ou na próxima tela que vou colorir. E olho para o meu lado direito e sou presenteada com uma visão perfeita: a minha Adda, sentada na varanda, com o porte altivo que o seu pedigree lhe confere, contemplando a vista para a cidade, lá em baixo. A luz do sol está linda e incide sobre o pêlo negro, cujo brilho intenso me deixa embevecida. Vou ali aninhar-me um bocadinho com ela.

2 comentários:

Joaninha.porto disse...

adorei o blog. visita diária da clinique, ex-visita diária das clinique girls. óptimo encontrar-te por aqui :) *

menina lamparina disse...

Óptimo ler o teu comentário! Sente-te em casa, Joaninha.

:)*