sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Aos bons funcionários públicos.

Victoria Beckham

Perdoem-me os que, como o meu pai e a minha mãe, abdicam das suas vidas pessoais em prol do brio profissional. Que trabalham horas extraordinárias sem receber mais por isso. Que abdicam dos Natais e dos aniversários dos filhos para cumprir o seu dever. Perdoem-me aqueles que em Torres (Vedras? Ou Novas?) largaram tudo para ajudar no temporal, quando poderiam ter ficado em casa bem refasteladinhos a enjorcar perú e bacalhau. Perdoem-me todos os funcionários do Estado que não recebem louvores publicados em Diário da República.
É por causa de pessoas como eu que a vossa fama está pelas ruas da amargura. Por causa de pessoas que sempre falaram muito, mas nunca se deram ao trabalho de reclamar no livro amarelo. Nunca denunciei as milhares de situações dignas de registo e, possivelmente sanção, em que me vi metida por mera má vontade de funcionários "diferentes", vá. Daqueles que mancham a imagem do serviço público que vocês tentam manter com o vosso sacrifício diário.
Durante todo o meu percurso académico, fui mal atendida nas secretarias da Universidade e da Faculdade. Houve duas senhoras - apenas duas, no meio das centenas de funcionários que sentam a peida gorda naquelas cadeiras - que foram simpáticas, educadas e prestáveis. O resto da escumalha sempre foi intragável. No trato e na vontade de trabalhar. Uma vergonha. Cheguei a chorar por ver atrasados os meus processos e perdidos os meus dias nas filas dos serviços administrativos. "- Afinal ainda tem que ir à Sociedade Filantrópico-blá blá blá buscar uma vinheta. - Que vinheta? porque raio não me disseram isso antes? - Pois, não sei, mas sem vinheta, nada feito. (...) - Está aqui a vinheta. - Mas não é aqui que tem de entregar esses documentos, é na secretaria da Faculdade. - Mas lá disseram-me que era na Geral!" E nisto, iam-se dias entre filas e secretarias, entre busca papel e traz papel.
Hoje voltei à secretaria da Universidade. Depois de meia hora à procura de lugar - quem conhece a zona da alta compreende bem isto. "- Bom dia, vinha aqui buscar um impresso... - Não é aqui, é acolá." Pensei logo que estávamos a começar bem, mas qual não foi o meu espanto quando cheguei à sala dos serviços administrativos e me diz um senhor: "- Olhe que não há senhas!" Bom, expliquei-lhe calmamente que só precisava da porcaria de um papel e que à tarde tinha que trabalhar, que não tinha tempo, etc. O senhor não só me deixou entrar, como me encaminhou para outra funcionária que me tratou com o maior dos respeitos! Deram-me tudo o que era necessário para me pôr a andar dali para fora, ofereceu-se para me preencher o que era preciso, tirou-me fotocópias do Cartão Único... e ainda disse: "- Vê? Assim já vai despachadinha!".
Os meus olhos quase saltaram da cara, que tanta eficácia não é, de todo, normal.
Em conversa com a minha bff, que tantas vezes me acompanhou nestas jornadas de dor e que sabe quão pesada é a máquina dos papéis da Universidade, cheguei à conclusão que isto de ser crescida também ajuda. De certeza. Uma gaja já não chega lá com ar de pedinte, quer é resolver as cenas porque tem mais que fazer e pronto. "- Ah já trabalha? Por aqui, mileidi. Chá e scones?" God, fiquei parva. Ainda estou. Parva.

2 comentários:

Anónimo disse...

E então se por ventura usas o título honorífico que o teu trabalho te disponibiliza, ainda anda mais rápido. Infelizmente, funciona assim...

menina lamparina disse...

Ainda estou a perceber que isso é mesmo verdade... :/