terça-feira, 3 de agosto de 2010

I love my job #1

Kate Hudson
Festas da aldeia. Leiloavam-se galos, bolos, assados e tudo o que mais houvesse para leiloar. Gritos, barulho, gente, muita gente. Um ambiente popular tipicamente português, uma religiosidade festiva, apesar de venerar entidades já mortas. Dirijo-me a um rapaz jovem que num cubículo aviava as rifas das velhinhas:

- Boa tarde, sabe-me dizer onde posso encontrar alguém da comissão de festas?
- Para que era?
- Eu sou jornalista e queria falar com o autor do livro que foi lançado…
- Sou eu mesmo! – o sorriso veio ao de cima e os olhos já não fitavam os papelinhos enrolados nem a enorme lista dos tristes prémios.

A conversa decorreu com a normalidade que esperava, dado o contexto. É sempre estranha, aos meus olhos, a dedicação a uma terra que não retribui – não porque não queira, mas porque não consegue. É sempre estranho, aos meus olhos, o bairrismo e o amor que se manifesta por cada lugar perdido. Surpreendem-me sempre, porque não compreendo, talvez por nunca me ter sentido filha de uma terriola, mas sim filha de uma nação. O dito autor explicava que sempre tinha sentido o desejo de escrever um livro sobre a sua aldeia, muito pequena, lá para os lados de nenhures. De projectar em cada página, a história e o povo que a desenhou no tempo. E que o seu sonho era chamar a atenção para a tal localidade.

- E então, onde está à venda o livro?
- Na Junta de Freguesia e nos estabelecimentos daqui.
- … - foi aqui que pousei a esferográfica sobre o caderno e tentei não mostrar jocosidade na minha sugestão:
- Desculpe intrometer-me, mas não disse que queria dar a sua terra a conhecer ao mundo?
- Sim, sempre foi esse o meu objectivo. Este livro funciona como bilhete postal!
- Então e vai pô-lo à venda só aqui na terra, onde já toda a gente conhece… a terra?
- …
- Não era mais lógico pô-lo à venda fora da aldeia, da freguesia, para que quem nunca tenha ouvido falar deste lugar, ouça pelo menos falar no nome?
- Olhe que grande ideia!!! Olhe que vou pensar nisso…

6 comentários:

João Gante disse...

Faz lembrar aquelas séries - como o MacGyver - em que o herói anda de terra em terra, sempre conhecendo pessoas diferentes, cujas vidas consegue orientar.

Hoje um escritor, amanhã um toureiro, em Setembro um grupo de saltimbancos...diversa é a vida de quem pratica o bem.

Imperatriz Sissi disse...

Ainda dizem que só em NY acontece o impossível. Venham à província e verão. Agora já me habituei a estes contra sensos, mas no início sentia-me como a Alice no País das Maravilhas, num autêntico país dos disparates!

menina lamparina disse...

É mesmo assim, João. Sinto-me um MacGyver, uma profeta, whatever ahahah

menina lamparina disse...

Imperatriz Sissi, bons olhos a leiam! Sinta-se bem-vinda aos meus novos aposentos.

Bem, acho que depois deste "estágio provinciano", temos toda a estaleca para dominar NYC e os seus loucos eheheheh

Beijinhos, boas férias!

Diana disse...

OMG! Ele queria divulgar para as pessoas que moram lá??? Como é que é possível alguém ter uma ideia boa, que é escrever um livro para mostrar a "terra", e depois o livro é só para as pessoas da "terra"? Há coisas que eu não entendo!

menina lamparina disse...

Há gente burra, Di. Temos que aprender a viver com isso ahahahah e o ar dele quando eu lhe sugeri que o vendesse fora da freguesia? WOOOOW!!! eureka! :D