quinta-feira, 16 de junho de 2016

os neutros de Kim Kardashian


Há quem a ame, quem não a suporte, quem siga todos os seus passos para fundamentar o ódio e quem almeje ser e ter tudo o que o seu sobrenome representa. A verdade é que Kim Kardashian é um ícone da cultura trash que marca o início do milénio. Goste-se ou não da rainha da Reality TV, há algo nela que tem vindo a adquirir contornos tão vincados como os da sua silhueta: o estilo. Sem abdicar da aura sexy que a caracteriza, Kim Kardashian revela-se num street style coeso onde predominam os tons neutros e a simplicidade das peças lisas.

Dos cinzas aos beges, passando pelos brancos, estes são os tons de que ela abusa sem pudores, do casaco aos sapatos, sempre com acessórios de linhas simples.


Grávida ou não, mais coberta ou mostrando mais pele, os looks monocromáticos são a sua escolha segura.

Confesso que sou apaixonada por estes looks e que adoro a ousadia de assumir as curvas sem medo de quebrar regras.


Como transportar este estilo para a vida real que é como quem diz sem um glam squad por perto, pronto a retocar o make up a cada cinco minutos e sem uma stylist para escolher o outfit do dia ?
Simples: aposte em peças lisas, sempre em tons neutros, e conjugue-as entre si.
 
Mulheres curvilíneas: para usarem roupas tão coleantes como a Kim, apostem em lingerie que vos faça sentir confortáveis, sem pregas à vista e que não crie vincos, porque estes looks vivem da perfeição nos detalhes!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Foste a minha última avó e eu a tua primeira neta.

Sete da manhã e eu continuava acordada. Sete da manhã e eu continuava a chorar. Que angústia. Acordei a saber que se passava alguma coisa, sem imaginar que terias partido. Mesmo quando estamos à espera, não esperávamos, não é? Mesmo que seja um alívio, é uma dor, não é?

Que ano do caraças. Pelo andar da carruagem, quando der por ela, este blog tornou-se num obituário. Tantas perdas, tantas lágrimas, tanta saudade. E a ti, sinto que já te tinha perdido muito antes que o teu corpo cedesse à morte. Deixaste de ser a Minha Avó Elvira quando as nossas conversas desapareceram. Foram demasiadas cirurgias, demasiadas chatices. Mas sei que já estás feliz ao lado do Vô António, de mãos dadas e aos beijinhos como quando me levaram ao Aquário Vasco da Gama. Ainda há dias revi essas fotografias. Vocês sempre me fizeram tão feliz. Nunca te disse, mas quero um amor como o vosso. E quero ser uma avó porreira, que anda de ténis e é diferente das outras avós. Quero ser a avó que transforma telas em branco em pedaços de arte para pendurar na parede. Que faz bonecas de gesso para as netas. Que decora um quarto com a cor dos teus olhos. Quero ter as estantes da sala cheias de livros que li. Quero continuar a escrever como tu sempre escreveste. E a sentir como sempre sentiste, mesmo que o escondesses.

A nossa conversa mais profunda de todas foi aquela na varanda da Tia Xana. Aquela em que me falaste da tua atracção por abismos, precipícios, pontes. O avô dizia-te "-E eu, Elvira?". E tu voltavas. E quando me disseste, em lágrimas, que não percebias porque ele te tinha deixado cá ficar, respondi-te: "-E eu, avó?". E quando pus a mão no teu caixão, na terça-feira passada, perguntei-te: "-E nós, avó?".

E eu?

Coça-me as costas. Faz-me a maionese de que nunca gostei porque prefiro Hellmann's. Deixa-me ouvir-te durante uma hora seguida ao telemóvel, como quando me ligavas e eu era só uma miúda a estudar em Coimbra. Responde-me às perguntas imbecis. Ri-te comigo. Faz-me cachecóis em tricot. Vamos almoçar fora. Vamos apanhar sol numa esplanada qualquer. Anda de mãos dadas comigo.

Já esperava há algum tempo. Isto de não conseguir ver-te sem desatar a chorar não fazia sentido. Há alívio aqui. E a certeza de que fiz o que pude, o que soube, o que consegui. Até o teu mau feitio durante aquele mês em que tomei conta de ti me faz sorrir. Pelo menos fui eu. Era o mínimo que podia fazer por quem me deu tanto. Minha Avó. Nunca te chamei avózinha e tu querias tanto.

Não sei se te agradeci o suficiente. Sei que sabes. Obrigada por me entenderes tão bem, é tão raro nesta família que me conheçam por dentro. Obrigada por me veres com os olhos da alma. Pelas tuas mãos nas minhas, desde que me beliscavas com o pico-pico-saranico. E que lindas mãos, Avó.

Tenho as tuas matrioscas à minha frente. Tenho coisinhas tuas em minha casa. São um orgulho, sabes? Sempre que digo "era da Minha Avó", há um bater mais forte do meu coração. Há de ti em mim. Por fora, mas tanto por dentro. Maria Elvira, espera por mim com o resto da comitiva - vocês são cada vez mais aí em cima. Dá um toque a Deus, preciso da atenção dEle. E descansa, ri muito, mata saudades do teu amor.

Até já.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

anarendallstylist

Estávamos em Dezembro de 2014 quando trabalhei pela última vez para outras pessoas. A decisão de me atirar para o vazio não foi irresponsável, mas sim um plano pensado e executado ao longo de dois anos. E só a tomei porque sabia que tinha uma rede de segurança infalível debaixo de mim, caso caísse.

Deixei para trás a imprensa regional e abracei o meu sonho: escrevi um livro. Depois disso, os meus pais ofereceram-me o impulso de que precisava quando completei os trinta anos e ordenaram-me que voasse. Quando dei por mim, estava em Lisboa, na cidade onde nasci, a estudar algo que me apaixona há muitos anos. 

Hoje, além de Jornalista, sou também Consultora de Imagem e estou a dar os primeiros passos num projecto para o qual tenho imensas ideias - algumas estou a colocar em prática e serão reveladas mais tarde. 

Neste primeiro dia de Junho, alio o meu blog pessoal à página de Facebook que criei para esta vertente mais recente da minha vida.

A partir de hoje, o Lady Lamp emparelha-se com uma nova era profissional, servindo também de extensão à área em que me especializei. Deste modo, poderei criar conteúdos diferentes daqueles que surgem na (ainda) única plataforma que possui a assinatura Ana Rendall Stylist. Em breve surgirá outro complemento, de que vos falarei em tempo oportuno.

Posto isto, já sabem: sempre que um post abordar temas relacionados com styling, moda, tendências e girly stuff do género, será partilhado na página e terá a etiqueta anarendallstylist. Contem com dicas, moodboards, sugestões, partilhas, esclarecimentos e participem com dúvidas, questões ou sugestões. Tenho a certeza de que este será um veículo de comunicação agradável para emissor e receptores.

Entretanto podem sempre espreitar este texto que escrevi quando inaugurei a minha página e que explica a ligação entre a minha formação académica, toda Comunicação, e a Consultoria de Imagem. Façam like por lá!

Obrigada por me acompanharem sempre. Até já! 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Gui

Andava triste, então deixei de escrever aqui. Agora todas as outras tristezas parecem caprichos. Sabes, um amigo nosso disse-me há tempos que eu devia deixar de escrever para os outros e escrever as minhas idiotices para mim. O que ele não sabia é que quando temos esta alma, é mesmo para nós que se vertem as palavras. Tive medo de me sentar aqui, de computador à frente e dizer-te mais do que o "desculpa" que tem saído sucessivamente. Mas acho que preciso.

Ontem vi-te ali, no sítio em que combinámos jantar tantas vezes. Nunca pudeste vir e nós, que achamos que o corpo dura para sempre, acreditámos todos que ia acontecer em breve. Vi-te sentado connosco, o teu sorriso vivo, as nossas conversas animadas. Em vez de te recordarmos, estávamos a aproveitar a tua presença. Em vez de nos desfazermos em lágrimas com um fado sobre a dor de quem fica, estávamos a ouvir os teus planos mirabolantes para a minha carreira internacional como fadista. E eu nunca quis cantar para ti. Desculpa.

Esta merda não pára. O choque. De repente, não sei nada. Estou com a vida suspensa desde Sábado. Não sei o que fazer. Ingenuamente, pensei que depois do funeral ia ficar melhor, como se esse evento tornasse real o que não processei. E fiquei pior. Sinto uma vergonha imensa por não conseguir dizer ou fazer alguma coisa que de algum modo console os teus amigos, cuja dor será maior que a minha. E sinto uma vergonha imensa por estar neste estado quando tens uma família que está a sofrer tanto. Só posso pedir a Deus que os alivie. Tenho tentado, ainda que calada, estar lá para a Maria. Mas a tua partida, tão violenta e sem sentido, mexeu com a estrutura de toda a gente.

Não me sai da cabeça a imagem da tua expressão enquanto me puxavas para dançar, na Sexta-feira. E estou cansada de reviver essa noite, uma vez depois da outra, vezes seguidas, analisando cada detalhe que poderia ter sido de outra maneira. Quando me disseste, num rasgo de espontaneidade, que deveríamos todos ir contigo ver o mar, ri-me. Devia ter levado a sério, devíamos ter ido. Devia ter-te dito como estavas bonito com o cabelo mais comprido. Tal como devia ter dançado contigo mais tempo.

No teu funeral, aquela música não saía de dentro de mim. Era impossível não rir às gargalhadas quando se começava a ouvir "Moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza"... E cantávamos todos que em Fevereiro havia Carnaval. E ali estava eu, em pleno dia de Carnaval, em marcha para o cemitério. Nem os palavrões ajudam. E tu, que querias feliz toda a gente à tua volta, que depois de me secares lágrimas me dizias "Não podes ficar assim de cada vez que as coisas não acontecem como queres" e me obrigavas a sorrir à força e a levantar-me, tu não estás aqui. E eu vou sentir sempre que devíamos ter ido tomar o pequeno-almoço a algum lado, mesmo que chegássemos a casa à hora do almoço.

Ontem quando cheguei a casa, apesar de cansada e com um raciocínio lento porque só dormi duas horas, voltaste a fazer-me sorrir quando me apercebi de que só trouxeste coisas boas. Apresentaste-me o João Pedro e se não fosse isso, ontem não teríamos estado os três juntos aqui em Lisboa. Desta vez estávamos profundamente tristes, mas pelo menos juntos. Estiveste tão presente, mas fizeste tanta falta. Uma vez pensaste que eu estava mesmo chateada contigo porque estava farta de esperar por um espaço na tua agenda para vires ter connosco. Como poderia chatear-me contigo se a vida para ti era um parque de diversões?
E tanta gente sem interesse nenhum para o planeta continua cá... cresci com a certeza de que Deus tem um plano para cada um de nós e hoje não sei se Ele não lida connosco como o dono de um aviário lida com as galinhas. Na volta, isto é só uma sucessão de ocorrências aleatórias em que o efeito borboleta impera. Porque não faz sentido.

Passei as últimas semanas aterrorizada com a ideia de que a minha avó poderia morrer, ainda por cima numa data tão próxima do 7 de Fevereiro, 60º aniversário do meu pai... e acordei na manhã de Sábado com a violência do que aconteceu. Não faz sentido.

E se eu tivesse cedido aos teus impulsos conciliadores, se eu não tivesse sido tão dura? Desculpa. Desculpa. Desculpa. Isto vai ficar para sempre em mim. Um pormenor e podíamos ter evitado aquelas notícias que me enchem de raiva. Sabes, sempre estive do outro lado - do lado de quem as escreve. Nunca me senti muito confortável a fazê-lo, mas trabalho é trabalho e quando me pediam que sacasse a foto de perfil de alguém, sentia-me muito mal. "É público, Ana. Qual é o problema?" - o problema é este. Quem está do lado oposto, do lado que dói, do lado de quem perdeu uma pessoa. Do lado do vazio. Do lado de quem ficou mais pobre.

Achamos que vamos durar o tempo todo. Como se o corpo fosse eterno. Por isso é que deixamos para depois, por isso é que adiamos, por isso é que nos vamos conformando com o que temos por medo de dar o salto, de arriscar. Medo de viver. Achamos que vamos estar aqui para sempre e é por isso que nos chateamos com coisinhas miúdas. Por isso é que não perdoamos. Por isso é que damos lugar ao orgulho.

E tu já sabias isso. Apesar de seres mais novo que eu, falavas comigo como se eu fosse uma miúda. E em todas as tuas frases havia a certeza de que a vida era para ser vivida. "Vai", "faz", "diz".

Ontem a Maria perguntava ao João Pedro como é que se lida com isto. Claro que ele não sabe como. Ninguém sabe. Mas a certo ponto, ele perguntou: "Já decidiste tirar alguém da tua vida? Isso também é matar. Matar de ti". Só que nesse caso, primeiro dói, custa, temos saudades agonizantes, depois habituamo-nos à ideia porque foi uma vontade nossa. Contigo, não. Arrancaram-te das nossas vidas sem dó nem piedade. Ninguém escolheu. Estive contigo e na manhã seguinte, já não ia voltar a ver-te aqui. Nem sequer estavas doente, como quando alguém tem cancro e podes começar a imaginar um futuro negro. Não estavas velho, para percebermos que falta pouco. Não faz sentido.

Descíamos do cemitério com o teu primo e senti-me péssima - ele perdeu o primo e estava a dar-nos força. Disse tantas coisas bonitas sobre ti. E eu lamentei não te ter dito outras tantas - ou porque estava com sono e não conseguia acompanhar-te nessa energia toda, ou porque me fazias perguntas cujas respostas seriam demasiado extensas, ou porque depois teria tempo para te explicar melhor. Desculpa.

Não sei como vão ser os dias. Não sei onde ir. Não sei nada.
Passou tão pouco tempo e este fosso enorme parece aumentar.
Quando acordo, ainda não abri os olhos e lembro-me de ti.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

saber o que se quer

Tanta gente sem saber o que quer e a "deixar-se levar", que tenho para mim que esse é o grande problema das relações humanas - a par das falhas de comunicação, claro está. Generalizou-se o modo «não sei o que quero, mas sei bem o que não quero» e assim livraram-se os indecisos das culpas de viver sem uma meta, um foco, uma big picture. Como se isso bastasse. Guess what: no que toca a relacionamentos, não basta. No amor, há que definir muito bem o que se quer para não cair em comodismos. No amor, não podemos conformar-nos nem contentar-nos com pouco. Chamem-me fria, mas eu acredito na objectividade até no campo dos sentimentos. Com a idade, as prioridades também evoluem e se há alguns anos (muitos) me parecia engraçada e excitante a ideia de me lançar no abismo sem a mínima previsão do que pretendia do salto, hoje funciono de maneira diferente. Ai de mim, que era tão ingénua... acreditava que no plano dos sentimentos e das emoções, a espontaneidade era rainha. Que as pessoas tinham de se aceitar sem exigências nem cobranças, que as coisas fluíam naturalmente, sem cedências, esforços ou sacrifícios. Tudo petas à filmes da Disney. Não é nada assim que a realidade funciona, porque na vida real lidamos com pessoas e as pessoas não são perfeitas. Nem eu, acreditem eu sei que parece estranho, mas é mesmo assim. Deste modo, não há pachorra para os jogos estilo gato e rato, para o deixa andar, para indecisões ou faltas de atenção e excessos de cautela com frieza e distância à mistura. Quando sabemos exactamente o que queremos, para onde nos dirigimos e onde vamos chegar, eliminamos perdas de tempo e pessoas desnecessárias. Elevar os padrões e definir um rumo afasta-nos de quem não interessa, porque quem realmente importa não se assusta com a nossa elevada exigência.

Resumindo, as longas conversas entre amigas resultam sempre em posts cheios de convicção. Isto porque entre solteiras e comprometidas, há sempre algo de que não consigo admitir que uma mulher abra mão: da sua independência emocional. O outro deve ser um extra, o porto de abrigo, o escape do rame-rame do quotidiano e não um apêndice ou o centro da nossa existência. Parece uma daquelas verdades óbvias, mas é tão esquecida que me chega a assustar.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Foi sem querer.

Foi sem querer.
Desde pequenina, fui aprendendo. Fui-me formando. Fui deixando que a armadura engrossasse, fui-me habituando a desconfiar - até dos mais próximos. Fui sendo levada a não abrir a porta a qualquer sorriso, a não dar de mim só porque sim. Desde pequenina, desde muito pequenina mesmo. Quando dei por mim, já era a antipática da família, a mandona da turma, a má. A ternura foi ficando reservada apenas para momentos sagrados. A doçura, aplicada apenas em pequenas doses. Não fui eu que quis assim - aconteceu assim. Aprendi a disfarçar fragilidades, a não gostar da vulnerabilidade, aprendi que a defesa é o melhor ataque, já que este planeta é maioritariamente povoado por maldade. Aprendi que o mundo é dos fortes e que não podemos dar espaço a fraquezas. Se as mostrarmos, alguém se há-de aproveitar da situação para nos pisar mais um bocadinho. Dei por mim a saber chorar sozinha no meu quarto e a encarar a rua de sorriso nos lábios e olhar altivo, a esconder-me em mim e esta semana, percebi que esta minha maneira de ser áspera afecta os outros. Já tinha uma leve noção, confesso. No entanto, como não dou grande importância ao que os outros dizem ou pensam (outra característica de quem se torna superficialmente frio), julgava que as minhas palavras não tinham tanto impacto como isso. Mentira. Podem ter.

Numa aula do curso que estou a tirar, usei uma expressão sem importância para referir uma certa falta de gosto que tenho pelo estudo como a maior parte das pessoas o encara. Dizia que só gosto de estudar aquilo que me apaixona, que não sou de marrar por obrigação. "Nunca gostei de estudos sérios", disse, numa frase pouco pensada e extremamente coloquial. Todas as pessoas que fizeram uso da palavra depois da minha intervenção usaram a mesma expressão: "Estudos sérios, como referiu a Ana"; "Estudos ditos sérios, como disse a Ana"; "Tal como a Ana afirmou, estudos sérios". No caminho de regresso para casa, percebi que as pessoas ouvem o que digo com mais atenção do que eu própria verto as palavras. Tenho uma voz grave, bem colocada, marcante. Isso ajuda, claro. Mas a questão é que saí dali consciente de que talvez devesse pensar mais no que digo. Dizem que as palavras têm poder, certo?

No fim-de-semana passado, sofri sozinha as consequências do que disse sem pensar, num laivo de raiva. Disse-o convictamente, como sempre disse tudo. Não sei comunicar sem ser assertiva ou sem acreditar no que afirmo. Não há doçura nas minhas palavras, mesmo quando amo o meu interlocutor. E de tão dura ser, afasto, magoo, irrito aqueles que queria ter perto de mim. Gostava de ser melhor, de emanar mais amor, verbalizando-o sem medo de me colocar numa posição desfavorável. Gostava de saber como.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Passo a vida a seguir em frente.

Miranda Kerr
Era marcares o meu número enquanto entras na cidade, em vez de pensares em mim e ficares calado. Em vez de me dizeres no dia seguinte, numa mensagem a que não consigo responder, que estiveste tão perto. É que ainda te vejo por todo o lado e é tão triste fazer o caminho todo a evitar olhar para tudo o que me faça lembrar de ti. E depois chego a casa e continuas ali, presente no que imaginei mas que nunca te contei. Estás em cada pedaço de cidade, em cada espaço. Queria levar-te a alguns deles. E há outros, onde estiveste, a que vou sozinha para encontrar um bocadinho de ti. Para matar saudades. Para tentar deixar lá tudo o que é teu e está cá dentro. Não quero ter isto em mim. Não gosto de te encontrar em tantos carros que se cruzam comigo no trânsito. Não gosto de te ver noutros sorrisos. E quando regresso, ainda é pior. Sei que foi ali que estive sentada enquanto me ria durante as conversas parvas ao telemóvel. Lembro-me de descer aquelas escadas para ir ter contigo. E foi naquela esquina do jardim que me pediste que te contasse uma história para que adormecesses. Claro que não consegui conter o meu natural dom para ridicularizar o que é bonito e desconstruir o que me enternece. Sabe Deus o que quis abraçar-me a ti nesse momento. Sabe Deus o que queria abraçar-te agora. Tirar-te dessa vida escura em que insistes em permanecer, mesmo sabendo que poderias ter tão melhor. Era tão fácil acabares com isto. Será que se soubesses que eu sei tudo se tornava mais fácil? Será que se soubesses que não me irritas, não me enervas, não me fazes nascer raiva nenhuma, se tornava mais fácil? Não sei. Acho que também não interessa. Passo a vida a seguir em frente. É que o caminho não é curto e no final, só posso contar comigo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

O que fazem os namorados

É simples: se a pergunta for sobre as funções que uma namorada tem a seu cargo, consigo dissertar durante horas. Já o escrevi muitas vezes, em vários contextos, em imensos espaços. Ser namorada é ser a companheira. A cúmplice. A amante. A amiga. Às vezes é mãe, quando toma conta dele. Porto de abrigo, mar onde se perdem os dois, corpo e alma dedicados a um homem. Mima-o sem motivo. Recebe-o com o jantar preferido na mesa e faz-lhe uma massagem antes de dormir. Fá-lo sentir-se um privilegiado por tê-la só para si. Ela ouve-o, encoraja-o, anima-o. Elogia-o com sinceridade, é paciente e compreensiva sem deixar de dizer o que pensa e de expressar o que sente. Ama-o e mostra-o diariamente. Compra uma lingerie nova só para o surpreender. Produz-se para ele só porque sim. Dá-lhe colo, adormece-o com festas no cabelo. É a  pessoa que alinha nas parvoíces, que se ri com ele, que o faz rir depois de um dia mau. Que não foge a um desafio só para o acompanhar. E é aquela com quem ele quer partilhar noites de copos, apesar de ela o encorajar a passar tempo sozinho com os amigos, porque também precisa de tempo para ela e para os amigos dela, que ser casal não é abdicar da individualidade.

...e depois perguntam-me «e o namorado»? E a resposta é curta:
- O namorado recebe.

Soa a redutor, parece que não espero muito do outro lado, mas saber receber é uma arte. Saber receber significa honrar o que foi dado. E honrar o que foi dado não é simplesmente sinónimo de reciprocidade. Valorizar, cuidar, proteger, transmitir segurança e manifestar amor no dia-a-dia são provas de que se sabe receber. E sendo que estamos a falar de homens, é claro que para um namorado digno desse rótulo, a namorada é a única mulher com quem ele quer partilhar intimidade. E intimidade não se refere exclusivamente a cama.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

desabafos sobre coisas sem importância (mas que importam)

Beyoncé
Dizem que a meia-estação é aquela altura giríssima em que podemos dar asas à criatividade no que toca à escolha de outfits. Claro. Visto de fora, parece fácil. Calças uns botins e vestes um vestido. Pelo sim, pelo não, levas um casaco. Acessorizas com um lenço ao pescoço e quando olhas para o espelho, pensas «que porra é esta?». Ainda tentas melhorar a coisa com um cinto, mas não vale a pena. Pareces a Heidi.
Despe. 
Segunda tentativa, já impaciente: calças de ganga. Até levavas aqueles pumps maravilhosos, mas o que vais ter de andar a pé em calçada portuguesa faz com que prefiras jogar pelo seguro: botins, salto grosso. Top de alças, liso. Um sobretudo. Demasiado calor com ele. Demasiado frio sem ele. 
Despe. 
Experimentas um biker jacket. Também não.
Despe.
E um blusão de cabedal simples? Not.
Despe.
Vamos à camada inferior. Escolhes uma camisa. «Que horror, tão tapada». Abres mais um botão. «Vê-se o soutien e não funciona». Torna a fechar a camisa mais um bocadinho. Agarras num blazer, só para não ter que pensar muito, mas não gostas de o ver com os botins. 
Descalças os botins. 
Calças uma porcaria de uns ténis em animal print, tiras uma qualquer t-shirt oversized do armário e sais porta fora com um cardigan na mala, que o frio do final do dia já deixou de ser problema no meio de tanto drama. E nisto tudo, só se safa a make up gira e o cabelão louco.

Sou eu. Todas as manhãs de meia-estação.

Isto para mim, cá entre nós, ou era Inverno ou era Verão. Ou é sandalinha ou é bota. Ou é sobretudo e parka quentinha ou alças e ombros a descoberto. Não tenho pachorra para não saber o que hei-de vestir, odeio o revirar de olhos em que me perco durante preciosos minutos porque não sei o que hei-de calçar - na verdade, eu andaria de stilettos todos os dias, não fossem os perigos da calçada que me assombra por todo o canto. Deviam inventar alternativas válidas para o dia-a-dia em que para obter conforto não tivesse que abrir mão do meu gosto pessoal. Odeio ver-me de ténis. Odeio usar sabrinas. Não gosto de rasos. Sinto-me anafada. Gosto da elegância dos saltos, da postura, dos passos seguros. 
Detesto a meia-estação de quem anda a pé. 
E nisto, já é Outubro. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

deixar o eu ser

Drew Barrymore
Não sei quando foi que aconteceu, mas podia apostar que tinha sido no dia cinco de Dezembro passado. Foi esse o último do meu contrato. Creio que nessa noite tenha sido inundada de liberdade. Mergulhada em liberdade. O frio na barriga, como a vertigem de quem se vai atirar de um precipício. O leve peso das asas. O vento gelado na cara. Foi aí que senti que podia voltar a mim. Ser eu. Expressar a minha opinião como e onde me apetecesse, sem o fardo da figura séria da jornalista. Deixei de me lembrar das expectativas dos outros, do determinado tipo de comportamento que esperam de nós quando trabalhamos numa cidade pequena. Saí do palco. Só quem se move em meios pequenos pode compreender a sensação, mas é um não querer saber que sabe a ondas. É um quero lá saber que sabe a mar. É um ser o que somos. Independente. Friamente. Livremente. E esta forma de estar, que já era parte de mim em tanto espaço da minha vida, apoderou-se, aos poucos, de cada recanto da alma. Quando dei por ela, era o que sou em todas as vertentes. Ser o que se é pode ser um desafio: afasta alguns, aproxima outros, mas torna-nos completos. Coesos. Dizer o que se quer, o que se pensa, o que se sente, sem ter em conta o que os outros esperam de nós, é ser leal. Poder fazê-lo é um privilégio. Requer coragem. Não tem a ver com aquela nova noção de honestidade que apregoa o ferir de susceptibilidades e a abolição do cuidado com o próximo. Não se trata daquele género de atitudes que defende que devemos dizer tudo o que nos passa pela cabeça e quem se sentir ofendido, paciência. Não é nada disso. É nutrir e exprimir, a cada acção, um profundo respeito pela nossa essência. É não tentar caber no agrado alheio. Isola-nos, claro. Porque agora não se conta o que antes era natural ou óbvio partilhar. Porque agora não dou o meu parecer porque não me apetece. Porque agora não perco tempo com o que não quero. Porque agora sigo as minhas normas, não as deles. Porque há uma clara tendência na maioria para amar os cordeiros do rebanho e desdenhar quem sai da norma. Mas quanto mais longe do mundo, mais perto de mim.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dia não.

Não gosto de ter dias não.
Não gosto de meia estação.
Não gosto de mentiras.
Não gosto de pessoas que subestimam a inteligência dos outros.
Não gosto de estar de mau humor.
Não gosto de não saber o que vestir.
Não gosto de não querer sorrir.
Não gosto de não conseguir conter lágrimas.
Não gosto de sentir o coração apertado.
Não gosto de ter saudades amargas.
Não gosto de não saber para onde ir.
Não gosto de me sentir assim.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Tudo perfeito na sua imperfeição.

Tudo perfeito na sua imperfeição. Bonito, mas não em demasia. Mais másculo que boneco, como ela preferia. Sorriso lindo, daqueles que congelam o mundo à volta. Mãos perfeitas, voz grave, cabelo denso. Como se Deus tivesse materializado a wishlist dela. Vocês estão a ver o tipo: pernas grossas, ombros largos, um pescoço forte. Um homem. Um homem moreno, grande mas mimento. Inteligente e divertido. Livre, tão livre que surpreende. Um homem que a fazia sentir-se mulher. Dançou com ela na rua, num parque de estacionamento, sem música. Riam-se juntos. E pouco depois, ele puxava-a para si. Ela afastava-se, centímetros entre eles, ele puxava-a para si novamente. Ela demorou a dar-se, tantos medos. Ele não fez nada de especial, foi tudo tão inusitado e dizem que quando não esperamos, a Vida nos surpreende. Ela achou que aquela tinha sido uma boa surpresa que a Vida lhe trouxera. Acreditou piamente nisso. Já não queria nada, já não acreditava em nada, ele apareceu. Foi ele que apareceu. Sem saber porquê, deixou-se levar. Conversavam imenso, baboseiras ou temas sérios, despudorados. Pareciam ter tanto em comum e ele fazia-a sentir-se capaz de fazer tudo. Era uma menina, com ele. Ao contrário do que fazia sempre, despiu as roupas de mulher adulta e segura para se mostrar tal como era. Deu-se. Sem perder tempo com jogos. É que ao lado dele, era tudo leve e o resto não interessava. Encantou-se e eu até consigo precisar em que fracção de segundo, em que ínfimo espaço temporal tudo mudou. Foi ali. Estava sentada. Perna traçada. Tinham acabado de ver o pôr-do-sol mais marcante do Verão dela, sentados na areia, em frente ao mar. Ele não sabia, mas ela já estava envolvida quando a abraçou e a fez sentir-se protegida. Uma menina. O caminho de regresso à realidade, depois de se encontrarem, era sempre tão sereno. Tanta paz. Nunca lhe tinha acontecido. Era sempre absorvida por uma extrema excitação quando vivia um novo romance. Havia sempre um acelerar do coração. Não desta vez. Desta vez era enorme a paz que a envolvia. Era suave o sorriso. Era simples. E quando deu por ela, por causa de tudo o que estavam a ser e de como era tudo diferente, já tinha expectativas. Já queria mimá-lo. Já queria. Já sonhava. Sonhou ser a cúmplice, mostrar-lhe que com ela era tudo melhor. Ele tinha o estigma da ovelha negra, ela faria com que sentisse que pertencia ali, junto dela. Que podiam ser os dois estranhos e criar um mundo onde ela seria o sol que lhe iluminaria aquele lado lunar tão acentuado. Seriam cúmplices. Ela já sonhava.

E quando deu por ela, era tudo mentira.

Provavelmente, nunca saberá o que realmente aconteceu. Ele foi-se embora e ela até chorou. Sentiu falta dele. Do sorriso lindo, daqueles que congelam o mundo à volta. Das mãos perfeitas, da voz grave, do cabelo denso que acariciou enquanto o viu adormecer. Sentiu saudades das conversas, do abraço, do beijo. De lhe tocar. Do cheiro dele. De tudo o que tinha imaginado e que ainda não tinha concretizado. Como nestas coisas do coração sempre foi de oito ou oitenta, de tudo ou nada, de ter ou não ter, de sim ou sopas, não se contentou com migalhas. Não conseguiu ir contra a sua natureza. Não quis ser mais uma amiga daquelas que se procuram quando apetece. Ama-se tanto, ama-se mais do que a qualquer outra pessoa, ama-se profundamente. E respeita-se, coisa que caiu em desuso. Então pegou nos seus sentimentos e tirou-os de si - confessou-os. Disse-lhe tudo e veio-se embora também. Ele ficou com eles, já podia guardá-los ou deitá-los fora. Ela esvaziou-se. E passado pouco tempo, ele já era só uma memória. Já não era tão bonito. Já não era perfeito. Ela diz que a falta de carácter torna as pessoas menos bonitas. Que quando amamos, os olhos adoçam e por isso não temos amigos feios. Por seu turno, quando se revela um interior feio, também a aparência do outro se transforma perante o nosso olhar e a beleza física acaba por se esvair.

Não o odeia, mas ainda lhe custa acreditar no que lhe aconteceu e como tem de atribuir significados a tudo o que a rodeia, diz que talvez ele tenha aparecido simplesmente para lhe provar que estava errada: que quer ter alguém por perto tão livre como ela, para correr por aí sem aquela confortável sensação de que se alimenta quem se afirma como um solitário. Que os sonhos não morreram, talvez os tenha abafado antes por ser mais difícil correr o risco de tentar ser feliz do que acreditar que a felicidade não é para nós.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Ana Capaz

Beyoncé
E se nesta semana houve um ponto alto, ele é fácil de apontar: foi o momento em que soube que tinha um texto meu publicado no Maria Capaz. Podem espreitá-lo aqui.

Para os que ainda não conhecem a plataforma, trata-se de um espaço que merece toda a nossa atenção e sobre o qual podem ler ali.

Nunca soube ser outra coisa senão eu.

Emma Stone
Só passaram dois meses desde que completei três décadas de existência e a minha vida já mudou imenso. Tanto que ainda não parei para pensar. Sinceramente, acho que nem quero fazê-lo. Prefiro atravessar os dias vivendo, sem abrir espaços para que a mente se assuste ao processar o natural desconforto inerente a qualquer mudança.

Depois de umas férias em modo nómada, marcadas pela óbvia sensação de que não houve tempo para descanso, comecei a saga da procura de apartamento em Lisboa. De Pombal, a única cidade a que chamei de casa, para aquela que me viu nascer. Depois de muita correria e de muito desespero, a casinha apareceu e eu vim. Vim com a sensação de quem não tem nada a perder. Vim começar do zero. Atrás de mim, ficou um percurso rico em experiência, que me deu a tarimba necessária para me sentir preparada para fazer mais e melhor. Na bagagem, trouxe muito mais do que preciso para o dia-a-dia. Trouxe as saudades da minha casa, do meu quarto lindo, da minha cama, da cozinha espaçosa onde gosto de cozinhar. As imensas saudades do meu pai. As saudades da minha cadela a receber-me diariamente em histeria, como se ver-me fosse o ponto alto da sua vida. As saudades dos meus gatos, os dois aos meus pés. Trouxe os meus amigos que ainda estão ali, a tentar evitar a desertificação, enquanto dão vida ao concelho que vai do mar à serra. Claro que há telemóveis, claro que estou a uma hora e meia de tudo isto... mas não estou lá. E apesar de Lisboa ser a minha cidade preferida, gosto mesmo é de vir cá em lazer. Nunca quis morar aqui. Sempre soube que a minha vida profissional acabaria por ter de passar pela capital, mas desejo ainda que seja apenas uma fase e que possa vir a dividir-me entre esta e outra cidade. Uma como Pombal, onde a qualidade de vida é insuperável. Uma onde os meus filhos possam ir fazer uma consulta ao domicílio com o avô veterinário, onde possam andar de bicicleta pela rua até anoitecer, onde brincar signifique algo parecido com o que fiz na minha infância.

Para já, estou aqui. Sem nada, a começar do zero. Os compassos de tempo na minha vida sempre foram diferentes dos das outras vidas: enquanto todos pensam em casar e ter filhos, ando eu nesta loucura estranha de começar uma nova etapa, novo emprego e novo curso. Nunca soube ser igual aos outros. Nunca soube fazer como os outros. Nunca soube ser outra coisa senão eu.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

t r i n t a

Hoje é o meu último dia com 29 anos. Amanhã, aliás, a partir da meia-noite, passo a ter 30. E não me apetecia nada. Não quero. Não me identifico com esse número. Não tem sequer relação com o meu já antigo medo de envelhecer. É mais que isso. Não me sinto uma mulher de 30 anos. Idealizei imenso, sonhei demasiado. Esperava estar noutra fase da minha vida, ter tudo aquilo que ainda não tenho, sentir-me como não me sinto. Isto correu de maneira muito diferente do que tinha planeado. Talvez não devesse ter permitido que as expectativas fossem tão altas, mas tudo o que quero não é assim tanto. Não tenho e dói-me. E não me venham com aquela treta de que tenho que valorizar o que tenho em vez de pensar no que me faz falta, porque isso eu já sei e já faço.

Trinta anos de uma vida cheia. Uma vida que parece um electrocardiograma, cheia de altos e baixos. Uma vida cheia de amor. A vida que Deus me deu. Uma família maravilhosa, tantos amigos especiais. Experiências incríveis. Muitos caracteres escritos desde pequenina. Uma criança estranhamente amorosa e muito sossegada, uma adolescente patinho feio, um florir extrovertido e alegre. Um curso, depois outro. Trabalhar num jornal já extinto, estar envolvida na fundação de outro. O meu grande feito, o meu romance terminado. Já estive noiva, já deixei de estar. Tantos que foram, tantos que chegaram. Tantos que chegam para ficar. Tanto por fazer. Nada por dizer.

Em altura de balanço, já me fartei de chorar. Cheguei à conclusão de que a próxima década será aquela em que tudo muda. Estive a preparar-me durante as três anteriores para o que aí vem. Quero tudo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

sem lugar

Na Igreja, pecadora. No mundo, uma santa.
Para os betinhos, louca. Entre os loucos, deslocada.
Demasiado profunda para os fúteis. Demasiado fútil para os intelectuais.
Muito formal para a média. Muito descontraída na formalidade.
Tão africana na Europa. Tão portuguesa em Angola.
Nem gorda, nem magra.
Nem baixa, nem alta.
Nem preta, nem branca.
Nem loura, nem morena.


terça-feira, 21 de julho de 2015

aquelas cartas que nunca chegarão aos destinatários

Cara Delevingne
Podíamos ter sido tudo. Podias ter sido tanto. Podia ter sido o que nunca acreditaste que fosse possível existir. Não há em mim ponta de mágoa, acredita. Fui eu que te julguei mais do que és. Não tens culpa da tua pequenez. Não tens. Como eu não tenho culpa do tamanho das minhas asas. Somos como somos. Foi por saber isso que aceitei tudo em ti. Aceitei o todo que és. Repara que os verbos não estão conjugados no presente - já não. Já foi. Contigo descobri o que levei tanto tempo a aceitar: que o passado é só isso mesmo. Passado. Está vivido e não existe. Já foi. Já não é. É por causa dele que nunca mais os meus olhos te verão da mesma maneira. É por causa dele que sinto repulsa. É por causa dele que prefiro nem saber de ti. Mas também é por causa dele que tenho pena. Nunca me arrependo de nada, mas às vezes lamento a ingenuidade com que te abri a porta da minha vida. A doçura com que te recebi. A generosidade com que te compreendi.

Chorei a tua partida de uma maneira tão solene, como uma viúva que recusa a morte do amor de uma vida, que olhando para trás nem percebo porque o fiz. A dor de perder o que nunca se chegou a possuir é cruel como matar os sonhos. E os que sonhei contigo eram tão humildes. Modestos. Simples. Pequenos. Redutores. Quis caber onde não havia espaço para mim. Diminuí-me, consciente da parvoíce que é tentar enfiar um pé 38 num sapato 35.

Não era tanto o sentimento, nem tão grande a afeição. Era a ilusão. A pele. Mais que tudo, era o errado. Nunca tinha errado tão bem.

E agora que já passou tanto tempo, mais de um ano, podes fazer o favor de não me incomodar?

segunda-feira, 20 de julho de 2015

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Gosto tanto.

Não costumo falar das minhas preferências quanto a correntes artísticas porque provavelmente, esse é dos poucos temas que não gosto de discutir. Melhor sentir que pensar. Melhor absorver que tentar expressar. Mas dos poucos artistas em que investiria, se pudesse, era John Hoyland. Gosto tanto.








Tanto, mas tanto, que gasto tempo a olhar. Só.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Quero muito regressar a Londres antes do final deste ano.

E o sketch restaurant será uma paragem obrigatória. Não é lindo? Não é apenas um restaurante, são vários. Há bar, há galeria, tudo num só espaço onde até as casas de banho são brutais.

(a entrada)




(as casas de banho)
Não é maravilhosamente apelativo?

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Calçava só isto.






 


Gosto de todos. E há tanto tempo que não descobria um designer que me fizesse suspirar por tudo o que visse assinado por si. Podem perder-se aqui.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

eles não sabem que o sonho...

.

E o cuidado que temos que ter com aqueles com quem criamos memórias? Sabemos lá no que nos estamos a meter quando abrimos a porta. As memórias podem durar uma vida e tantas pessoas são passageiras.
São os pequenos raios de luz que guardamos em nós, e que nos fazem brilhar o olhar quando nos lembramos. Não controlamos nada disto, na verdade. Acontece.
E é tão bom que aconteça, que nos alimente durante dias, semanas. E que depois fique guardado em nós. E há-de chegar o dia em que passam a morar cá dentro, as pessoas. Elas quiseram, nos deixámos. E as memórias criar-se-ão todos os dias.




quinta-feira, 9 de julho de 2015

it feels right

Desde pequenina que não sei ser feliz. Só feliz. Simplesmente feliz. Choro sempre quando algo de bom me acontece, não apenas por comoção mas por sentir que talvez não merecesse tanto e por medo de perder aquela sensação, aquelas fracções de segundo de plenitude. Como uma tristeza antecipada por saber que vou inevitavelmente deixar de estar feliz. Sou assim, não sei se algum dia deixarei de ser. Vivo numa ansiedade constante, numa incessante tentativa de não acreditar nas convicções que fui deixando morar em mim: que não mereço, que não é para mim, que não sou digna. Há tanta gente melhor que eu, porque seria escolhida para receber as coisas que mais valorizo?

Não é falsa humildade nem falsa modéstia. Não se trata sequer de uma vitimização. Apesar de ser uma sonhadora incurável, já perdi tantas vezes que desaprendi a esperança. E já vi perder tantas vezes que só acredito quando tenho na mão. Vi sonhos desmoronarem-se por pequenos desleixos e por excesso de confiança, metas que não foram alcançadas porque no último metro aconteceu algo que roubou o segundo de vitória que já se via tão perto. Já assisti à queda de impérios, à morte de famílias, a reviravoltas assustadoras. Isto da vida é uma barafunda.

No meio de tanta ferida, tanta cicatriz e tanto medo, quando surge uma brisa suave e salgada, com aquele cheiro doce das dunas, obrigando-nos a parar e a sentar, não sabemos o que fazer. Contemplamos. E assim sossegamos. E já sabemos o que vai acontecer. Sabemos tudo, mas não podemos contar a ninguém. Porque quem sabe não somos nós, é o nosso espírito - ele sabe sempre mais do que nós, porque não é toldado pela racionalidade nem pelos sentidos ou pelo conhecimento adquirido através da experiência. O nosso espírito sabe, simplesmente. Intuitivamente.

Então mesmo que queiramos agir contra nós, abrimos os braços e atiramo-nos. Sem pensar muito no que virá depois. Porque o que virá depois não pode ser pior do que aquilo que deixámos para trás.

Traí-me. E eu sei porquê. Para quê.

Obrigada.





(E se a minha escrita for profética, como dizes, que o meu desejo fique aqui gravado nas entrelinhas...)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

boazinha o caraças

Não sei o que fiz para se habituarem ao melhor de mim. Não sei onde demonstrei ser tão perfeita. Já deviam ter percebido que esperar muito de alguém é o melhor caminho para a desilusão.

Não suporto cobranças, expectativas, pressões. Basta uma das três para me virar do avesso.


segunda-feira, 6 de julho de 2015

«Liberdade é poder de escolha. Escolhe o que te acalma o coração.»

Há dias em que gostaria de abrir mão do livre-arbítrio. Desta capacidade de decidir tudo, que me faz pensar tanto. Há dias em que queria apenas que Deus me levasse na corrente, que me desaguasse onde bem entendesse, que me fundisse com um oceano qualquer onde pudesse desaparecer para sempre. Sem ter que escolher nada. Nesses dias, sinto-me culpada pelos medos que tenho, pela fé que ainda é tão pequena, pelas inseguranças que tomam conta de mim. Afogo-me nelas.

Tenho o coração de uma criança. Frágil. Sou uma menina num corpo de mulher. Uma presença forte que esconde tantas fraquezas. Não sou como toda a gente, fácil de gostar, de amar, de querer. Sou um desafio para mim mesma, uma farsa constante, um medo de ser descoberta. Uma fachada. Personagem de mim.

Tornei-me em tudo o que quis ser - esforcei-me tanto para me construir, que me cansei. Agora já só quero despir-me e ser eu. Eu, debaixo do invólucro. Eu, invisível aos olhos. Eu.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

o insustentável peso do que foi

Aprendi a aprender com o passado. Aprendi de tal forma que não consigo desaprender. Como se tudo o que foi começasse a pesar demasiado no meu hoje. Aprender com o que vivemos deveria preparar-nos para o futuro e não impedir-nos de viver o presente em pleno, certo?
Principalmente quando o presente é mesmo um presente. 
Não sei como me ensinei tão bem a fechar-me nesta armadura rígida. Tranquei-me. E acho que perdi as chaves para me soltar. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Hoje começa o meu mês

Drew Barrymore
E o meu maior desejo é receber a resposta para a pergunta que o mês de Junho trouxe (porque há meses que perguntam e meses que respondem).

segunda-feira, 29 de junho de 2015

começar a semana com ternura

O namorado da Mana é surfista. Ela dizia-me que não havia coisa mais fofa do que vê-lo com o poncho vestido, depois de horas no mar. E eu não percebia. Eis-me aqui, a dar a mão à palmatória: não há nada mais querido do que um homem de poncho. E com esta me vou. Obrigada, boa noite.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

dos traumas, dos dramas, dos medos.

Tudo o que somos inclui o que fomos, o que vivemos, o que sentimos, o que ouvimos, o que dissemos, o que fizemos, o que quisemos, o que chorámos, o que lemos, o que escrevemos, o que guardámos em nós.
Memórias, lembranças, o nosso trilho. Aprendemos tanto, tantas coisas bonitas. E aprendemos tanto, tantas coisas feias. E porque somos seres de hábitos, habituamo-nos também ao que não é bom. Aprendemos a criar defesas, a desconfiar, a manter distâncias de segurança. Aprendemos a ser vítimas.
A verdadeira sabedoria está em não condicionar o presente pelas dores que já foram. A verdadeira coragem está em não permitir que o medo nos faça fugir de tudo o que é bonito porque é mais fácil continuar a acreditar que os lugares feios foram desenhados para que lá vivamos.
Quão injusto seria não abrir portas, não destruir muralhas, não quebrar barreiras entre nós e os outros. Não somos todos iguais. As histórias são todas diferentes. Não somos o casamento complicado dos nossos pais, não somos os namoros que terminaram mal nem os amigos que nos traíram. Aprendemos com tudo isso, mas se nos amamos, se nos respeitamos, não podemos diminuir-nos e restringirmo-nos à repetição de padrões.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

i n v e j a

inveja | s. f.
3ª pess. sing. pres. ind. de invejar
2ª pess. sing. imp. de invejar

in·ve·ja |â| ou |ê| ou |âi| 
substantivo feminino
1. Desgosto pelo bem alheio.
2. Desejo de possuir o que outro tem (acompanhado de ódio pelo possuidor).

"inveja", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha]



Não tenho em mim aquela semente verde da inveja. Não tenho. Não faz parte de mim. Não compreendo. Não aceito. Não sinto.

Detesto quando começam com a treta da "inveja branca". Inveja é inveja, é mau e acabou. Se se sente, há que suprimi-la. Podemos educar-nos. Como é que se pode dizer "ai que estou aqui roída de inveja branca"? Inveja branca o caraças, pá. Acredito nas energias que emanamos, por isso fico toda acagaçada com essas porcarias. Já sabemos que existe, que até uma pessoa com tudo para ser invejada pode querer o que o outro tem, mesmo que o que o outro tenha seja quase nada. A inveja é sempre fruto de um de cinco factores: fraca auto-estima, complexos de inferioridade atrozes, insatisfação crónica, falta de formação ou pura maldade.

Quando digo que não sinto inveja, não quer dizer que não queira para mim algo que outra pessoa tem. Bom, normalmente, quando quero algo que outra pessoa tenha, quero noutro formato, com características diferentes - desde o carro bonito até ao casamento ou à conta bancária. Até posso precisar de mais dinheiro para o estilo de vida que me parece confortável, mas vivo bem com o que tenho e sei que hei-de lá chegar. Posso querer muito casar, mas não quero aquela relação peganhenta. Posso querer muito um carro tão giro como o daquela gaja, mas não aquele modelo nem aquela cor. Contudo, por mais que alguém perto de mim alcance um determinado objectivo que também espero alcançar futuramente, não vou passar sequer um segundo da minha vida a remoer aquilo amargamente. Porque antes de mais nada, ficarei feliz pela pessoa. E ver que aconteceu noutra existência dá-me ânimo e motivação para acreditar que posso vir a receber o que desejo, porque afinal é possível. Simples.

Apesar de não ser dotada dessa característica desprezível que é ser invejosa, tenho um radar invejável para detectar manifestações desse que é um dos sete pecados mortais. Reparo no olhar de lado para aquele par de sapatos maravilhoso, que resulta num salto partido ao chegar a casa. Na ausência de contenção de raiva quando partilhamos uma boa notícia. Nas palavras que se soltam dos menos cínicos ou dissimulados, que os denunciam: "Só a mim é que não me acontece isso"; "Como é que tens tanta sorte?"; "Tens mais sorte que juízo"; "Porque é que a mim não me cai tudo do céu como a ti?"; "Mas porque é que eu também não tenho isso?"... podia ficar aqui horas a enumerar exemplos ou a relatar episódios.

Não compreendo. Não gosto. Não aceito. Basta isto para que me feche em copas e viva sossegada no meu canto, preferindo que todos acreditem na miserabilidade da minha vidinha vã. Não conto nada a ninguém, não abro brechas para que me atinjam com esses dardos de má onda. E só com o dinheiro na mão é que digo que ganhei a lotaria. A alguns, porque não há cá merdas.

terça-feira, 23 de junho de 2015

o amor é eterno

Não é maravilhoso que depois de uma morte, o amor que sentimos por alguém não morra? Não é maravilhosa esta capacidade que temos de continuar a gostar tanto mesmo depois do desaparecimento físico? Olhando com os olhos de uma criança, como se fosse a primeira vez que pensamos nisto, como se não fosse um dado adquirido ou uma verdade universal, é delicadamente bonito que mesmo sem corpo para abraçar, sem olhos para olhar, sem voz para ouvir, continue tão vivo o amor por alguém. Arrumamos o sentimento na gaveta das saudades, numa tentativa de racionalizar o amor que nos ficou, apesar da partida do outro. Quem morre deixa de ser matéria, mas permanece. Na memória, nas recordações, na lágrima de quem sente a falta, na gargalhada que não se contém ao lembrar um episódio engraçado.

Minha Vó não morre nunca. Se fechar os olhos, lembro-me de tudo: das mãos enrugadas, tão bonitas. Das sobrancelhas, sempre tão expressiva. Da voz. Do cheiro. Consigo voltar ao meu corpo de menina e vê-la pentear-se em frente ao espelho. Sento-me à mesa com ela, sinto o aroma do seu pequeno-almoço, que lhe roubava descaradamente. Se fizesse igual para mim, não me sabia tão bem. E quando estou triste, é do colo dela que sinto falta, onde encostava a minha cabeça e lhe contava sobre o que me inquietava. E quando estou feliz, é ela a primeira pessoa a quem queria contar o que de bom me aconteceu.

Minha Vó pedia-me para cantar para ela. E durante anos, era a única pessoa que recebia mimos meus sem pedir, que eu não era uma criança muito afectuosa. O abraço, o beijinho, a festinha, eram dela. E que saudades que eu tenho de lhe tocar. Não há momento marcante em que não sinta a falta da minha Vó aqui. Queria a companhia dela, queria ir à praia com ela, queria que soubesse que o maior feito da minha vida lhe presta homenagem, queria agradecer-lhe por me ter dado tanto, por ter sido tanto. Dizer-lhe que não seria eu sem a existência dela. Que foi importante, mesmo sendo tantas vezes incompreendida e subestimada. Que me orgulho da mulher forte que sempre foi. Que me inspira a sua força. Queria contar-lhe da mulher em que me tornei.

Minha Vó aparece-me nos sonhos, de vez em quando. E eu mato saudades, acordo feliz. Esta noite não tive esse privilégio e hoje acordei com um aperto enorme no peito. Falta pouco tempo para o dia de anos dela e o mundo não sabe. Não sabe de tanta humildade, de tanta dignidade, do cantar nos dias tristes, da lágrima difícil, ao contrário da minha. O mundo não sabe de como insistia nas lições chatas, só para ter a certeza de que eu tinha bom carácter. De como eras ciumenta - ai de mim que não interrompesse as minhas brincadeiras com as outras crianças para te vir dar um beijo, de cinco em cinco minutos. De como demoravas tanto para te vestir.

Minha Vó dançava e ria às gargalhadas, apesar de ter tantos motivos para querer morrer.

Minha Vó era analfabeta. Não sabia ler nem escrever. E sabia tanto. Foi tanto. Era tanto. É tanto.

Lembro-me do dia em que soube que o corpo não ia aguentar tanto tempo como eu desejava. Começou a não corresponder à lucidez de quem o vestia. Os passos mais curtos e lentos, as quedas constantes. Fiz como ainda faço: fingi que não era preocupante, agi com naturalidade apesar do medo de deixar de tê-la ao meu lado todos os dias. Nem podia imaginar como era viver sem tê-la comigo. E fui crescendo e percebendo melhor tudo o que viveu, passando a admirá-la cada vez mais.
E com a admiração, também a saudade aumenta.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

...e de repente, é Verão outra vez.

Laetitia Casta
Depois de um semestre de eremita, custa-me ter que voltar à realidade. Aos poucos, vou retomando aquilo a que chamam vida, mas a minha foi tão dolorosamente bonita em clausura que quase me fere o contacto humano. Não sei explicar - ou talvez saiba, mas não queira que a honestidade seja lida como prepotência. 

E é Verão, apesar de sentir Primavera em mim. Está um calor maravilhoso, mas quem se habitua ao frio sofre com as subidas de temperatura. Quem se acomoda à lágrima esquece como se sorri. Quem enfrenta mágoas de peito aberto, demora a aceitar bênçãos. Sou assim: espero o Inverno inteiro pelo momento em que sinto o Sol queimar-me a pele, mas quando ele finalmente chega, tenho receio da insolação. Tenho dificuldades em viver o presente, medo de não saber aproveitá-lo, entro em pânico ao pensar que vai acabar e que vou voltar ao gélido e cinzento Inverno.

É estranho. Quando se trata de algo negativo, sou tão fria, decidida e despachada, resolvo tudo a sangue frio, faço o que tem de ser feito com segurança e convicção, mesmo que me deixe partida. A descarga de stress só chega depois, na quietude do meu quarto. Por outro lado, quando alguma coisa boa me chega, toda eu sou mãos trémulas e ansiedade, choro e fragilidade.

Quase trinta anos e ainda estou a aprender.