sexta-feira, 4 de abril de 2014

Bom fim-de-semana!

Lindsey Wixson
"A fala é a civilização em si. A palavra, mesmo a mais contraditória palavra, preserva o contacto - é o silêncio que isola."
Thomas Mann

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Já viram?

É exactamente o que sentimos. É exactamente o que tento expressar através das palavras. É lindo.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

pensamento do dia

O jornalista é um estraga-palavras. Usa-as para contar factos de uma maneira formatada e fria, desprovida de sentimentos e com pouca alma.

segunda-feira, 31 de março de 2014

as coisas vulgares que há na vida não deixam saudade

Jennifer Lopez
Quando aconteceu, não sabia. Quando o beijou, não sabia. Não poderia saber. Ainda agora não sabe.
Sem expectativas, sem exigências, só coisas boas. Só o olhar para ele. Vivê-lo enquanto estiver por perto. Deixá-lo entrar, mas com reservas, que isto das relações humanas assusta. Já lho disse, não é nada do que esperava. Temos sempre uma ideia que fazemos acerca dos que conhecemos superficialmente e a que tinha a seu respeito estava longe de ser correcta. Também não é nada do que esperava receber neste momento da sua vida. Não a enche de elogios, não tenta impressioná-la, não a envolve em momentos românticos como aqueles que são vistos nos filmes, antes do beijo que sela a união dos corpos. E ela gosta disso. Gosta do riso, da voz e das pernas dele. E gosta das mãos, do olhar de puto reguila e do pescoço. Sim, do pescoço curto que ele tem. E da barriguinha. Gosta de deitar a cabeça no peito dele e de ser embalada pela respiração profunda com que se deixa adormecer. Gosta de acordar e vê-lo, dar-lhe beijinhos e voltar a adormecer agarrada àquele corpo quente. Gosta de o ver dormir, demasiado bonito na sua serenidade, a mão dela nos pêlos do peito dele. Quando se vem embora, trá-lo dentro de si, ao lado da gratidão por se terem cruzado. Ou por ter sido escolhida por ele. No entanto, por cada bocadinho de si que quer querê-lo, há outros dois que recuam. Só nunca lhe disse porquê. Não é só a incapacidade crónica de depositar confiança. Não é só essa fobia de se apaixonar. Não são só os medos mais primários e tudo o que há de complicado entre os dois. É porque ele desperta nela aquela doce necessidade de agradar e fazer feliz, só pela recompensa de ver um sorriso. O sorriso. Para lá da voz grave e do homem adulto que intimida, por ter um passado tão maior que o seu, é aquele sorriso, aquele ar de puto, aquele olhar que não consegue fixar durante muito tempo. E aquelas festinhas nas costas, aquele abraço apertado, aquele beijo lento. Tudo. O cheiro, a pele, o queixo, as sobrancelhas. Tudo bom.

Boa semana, meus amores!

sexta-feira, 28 de março de 2014

o ponto de equilíbrio

Anja Rubik
Contavam-me sobre uma pessoa que se farta depressa dos namorados ou dos fulanos com quem tem casos. Como se fosse uma característica dela. Calei-me, não me apeteceu comentar, mas na verdade, quem se cansa com facilidade nem sempre é uma pessoa insaciável, insatisfeita ou pouco madura. Nem fria, nada disso. A falta de entusiasmo com uma relação vem com a rotina. É inevitável quando não há amor. Ou quando há um amor fraquinho. Ou quando não há paixão, daquelas paixões arrebatadoras e eternas, que provocam borboletas no estômago durante anos e anos e anos.
Pessoalmente, já me fartei do excesso de atenção e do excesso de desapego. Fartei-me sempre das pessoas, das relações e da convivência. Preciso de me sentir extraordinariamente querida pelo outro, mas não posso ser sufocada. Sou um bocado claustrofóbica, mas não gosto de sentir demasiado espaço entre o fim da minha pele e o início da dele. Quando as flores já não me fazem sorrir com a surpresa, está o caldo entornado. Gosto do inesperado e de muitos mimos, mas não lido bem com colas, tipo:
- Ah e tal, vou sair com as minhas amigas.
- Ah é? Boa! E vamos onde?
Nunca quis deixar de ser a Ana para passar a ser apenas parte integrante de um casal. Gosto de ter vida própria e adoro que a pessoa com quem estou também tenha uma. Paradoxalmente, preciso de sentir que por mais que não nos vejamos todos os dias, a pessoa queria mesmo era ver-me todos os dias. Que por mais que não possamos estar juntos, a pessoa telefona só para ouvir a minha voz e partilhar banalidades. Que depois de não fazermos um programinha juntos durante duas semanas, me convida para jantar.
Não sou eu que me canso depressa. Eles é que não encontram ponto de equilíbrio. Se calhar também é assim com a tal menina de quem me falavam...

Bom fim-de-semana!

Nicole Richie
"A diferença entre o veneno e o remédio é a dose."
(Anónimo)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Aqueles elogios que nos aquecem o coração.

Olsen Twins
A Mana Lamparina ouvia atentamente os meus desabafos cheios de pormenores sobre situações que me tiram do sério sem me pôr no riso, quando me disse que esta música tinha a letra que melhor se adequava à minha personalidade. É mesmo isso. Fico feliz quando as pessoas que têm peso na minha vida me reconhecem para lá das tretas, dos palpites, das maledicências, das mentiras e insinuações.

terça-feira, 25 de março de 2014

Non sense

Kate Moss
Percebemos que há algo de muito errado no planeta quando uma prostituta decide dizer-nos que fumar é prejudicial à saúde. 

Lata é pouco. Vamos então falar sobre DST?

Don't mess with my judgement.

Não foi há muito tempo que me perguntaram duas vezes no mesmo dia quão difícil era ser jornalista num meio pequeno. Tem o seu quê de complicado, respondo sempre. Mas há dias em que complicado é um eufemismo.
Ser jornalista numa terra do tamanho de uma ervilha com habitantes que se acham do tamanho do Golias é mais que complicado. Ser jornalista na imprensa regional  e neste concelho em particular torna-se um desafio diário porque nos dão mais importância do que aquela que na realidade temos. Acham-nos mais importantes do que realmente somos. Fazem jogos de bastidores para clamar por uma atenção que não tiveram. Tentam acusar-nos do que não tem nada a ver connosco.

Sempre tive uma tendência política, sempre apoiei uma determinada ideologia. É sabido. É público. É verdade. Nunca o escondi. Fui jotinha e gostei. Sou mais chegada à direita, e então? A social-democracia diz-me mais, so what? Esse facto nunca fez com que não me desse bem com pessoas de outras facções. Sou afilhada de uma comunista, tenho pais convictos - cada um para seu lado - mas que nunca se filiaram num partido e que votam sempre em consciência, tenho grandes amigos de esquerda e grandes amigos de direita. As diferenças ideológicas não chegam para que discrimine. Sou assim. Estranha.

Outra coisa estranha em mim é esta mania de separar a minha vida profissional da pessoal. Há quem viva para o trabalho, quem seja escravo da profissão. Feliz ou infelizmente, sou dessas que tem uma vida própria, com problemas (demasiados), preocupações, dramas, dores, alegrias (imensas), pessoas de quem cuidar, casa para arrumar, refeições para preparar, unhas para pintar. Sou assim, uma miúda ocupada que não deixa de viver por causa do emprego que adora. Chamo-lhe equilíbrio. Gosto disso.
Esta necessidade de separar as águas só pode ser compreendida por quem faça o mesmo. As pessoas como eu são dotadas de discernimento, sabem o que é ética e por isso mesmo, conseguem ter sempre em mente que lá por terem sido jotas, isso não pode interferir na produção noticiosa. Lá por gostar que o poder local seja laranja, isso não pode reflectir-se naquilo que escrevo. Nunca fui dada a bajulações, nunca precisei de o fazer, talvez por isso as pessoas se espantem com a falta de demonstração de subserviência da minha parte.
As pessoas como eu têm outra característica: lá porque são amigas do coração de alguém da oposição, não significa que lhes façam favores. Até porque não seria amiga de quem me pede favores... mas eu compreendo - julgamos os outros por aquilo que somos, não é?

Compreendo. Mas não tolero. Não suporto que questionem a minha conduta profissional por portas travessas. Não tenho pachorra para jogos de bastidores e tendo a ficar com ganas de dar razão a quem aponta o dedo, esquecendo os três que tem virados para si mesmo.

Além da estupefacção, de não conseguir imaginar o que leva alguém a vomitar a sua verborreia directamente aos ouvidos de uma pessoa que me é muitíssimo próxima - principalmente quando esse alguém me conhece e poderia esclarecer as suas dúvidas directamente comigo, atitude que seria bem mais nobre e respeitosa - fica a sensação de não saber ainda exactamente o que fazer. Estas coisas irritam-me, não pela fraqueza do ataque, mas pela falta de tomates, estão a ver? E quando me irritam, apetece-me fazer pior.

Vou ali pensar no assunto.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Quanto a essas tretas das leis do tabaco...

...e a todas as pessoas chatas, preocupadíssimas com a merda dos cigarros dos outros, só tenho a dizer que nunca vi nenhum pai de família entrar em casa, desatar aos pontapés às portas e aos murros às paredes e bater na mulher e nos filhos, porque fumou um maço inteiro.

Boa semana, meus amores!


sexta-feira, 21 de março de 2014

Bom fim-de-semana!

Amanda Seyfried
"O amor é como a criança: deseja tudo o que vê."
William Shakespeare

quinta-feira, 20 de março de 2014

Printemps.






Diz que os dias ficam maiores
Que as alergias ficam piores
Que até os passarinhos se deixam apaixonar
E que as flores começam a brotar.

Eu cá prefiro o Verão, mas isto já não é mau.

das coisas que vou vendo

Kate Moss
Quando não é por dinheiro, foi uma traição - ou várias e a descoberta de uma delas - que levou o casamento ao fim. Divórcios há muitos, casais e pessoas também, mas há uma conduta que revejo em todas as situações do género. Somos todos humanos e há aspectos inerentes a esta condição de se ser. Independentemente do que o homem tenha feito (ou deixado de fazer) para tornar a esposa numa mulher insatisfeita com o seu matrimónio, a verdade é que elas se tornam nas megeras com uma facilidade impressionante. Conheci muito poucas capazes da proeza de contornar o estereótipo da ex malévola, uma vez que a maioria se deixa levar pela amargura e cede à resposta torta, à resmunguice constante e ao azedume de não se privar da inconveniência, apontando defeitos sem conta, como num bombardeamento sem regra em que o que conta é atingir o outro. Tudo no marido passa a ser mau, como se não conhecessem a pessoa com quem se casaram: é um irresponsável porque se atrasou dez minutos no banho no dia em que há almoço em casa dos sogros, é um porco porque não limpou as migalhas do sofá, um desarrumado porque atirou o casaco para uma cadeira da sala de jantar, um desleixado porque ainda não arranjou aquela prateleira caída, um forreta porque não compra um presente há séculos, um mal criado porque retorquiu quando o chamaram à atenção porque não baixou a tampa da retrete, um inconsequente porque gastou dinheiro dele, ganho por ele, com o trabalho dele, numa compra com que não concordaram, um preguiçoso porque quer descansar. O fosso abre-se e eles já só vêem nelas as chatas, sempre trombudas, que não se divertem como antes e que não valorizam tudo o que são ou fazem: elas queixam-se do excesso de tempo que dedicam ao trabalho, em vez de apreciar o espírito de sacrifício do pai de família, que às tantas já usa o emprego como desculpa e abdica de um serão caseiro só para não ter que ir para casa aturar o mau feitio dela. O triste é que na maior parte das vezes, a cratera entre os dois torna-se num abismo colossal, humanamente impossível de ultrapassar quando se chega ao ponto em que o que sobrou do romance foram cinzas.
Depois de reconhecida a impossibilidade de levar avante uma união em que a palavra perdeu o sentido, desfazem-se os laços. Abre-se mão de um futuro com aquele parceiro, até aparecer outro que engane tão bem ou melhor que o primeiro. E para esse, a mulher será tão ou mais interessante que da última vez. E depois é ter fé para que o jogo não se repita, para que ela não encarne outra vez a bruxa malvada e para que ele não se torne no ex.

quarta-feira, 19 de março de 2014

19 de Março

Olsen Twins
Não devia ser Dia do Pai. Deveria ser Dia do Bom Pai. Assim, só os pais como o meu poderiam receber os mimos das filhas mimadas e dos filhos que têm no progenitor o seu herói. O meu pai é o melhor do planeta, mas mesmo, desses que fala pouco e mostra muito, mas que se topa a léguas quando se comove com as demonstrações de afecto das filhas. Acho que tanto eu como a Mana Lamparina vamos ser para sempre daddy's girls, dessas que mesmo aos 40 anos sabem que se precisarem, podem ligar ao papá - ele salva.
Chama-se Carlos e é uma enciclopédia feita gente. Sempre foi a minha rede de segurança, a pessoa que sendo humana e falível, me permite pensar em altos vôos porque se não me segurar antes de cair, pelo menos amortece a minha queda. Se decidi seguir este sonho parvo de escrever para ganhar a vida (oh inconsciência!), foi porque vi nele o exemplo de quem é feliz com a sua profissão. Ele é médico veterinário porque gosta e não porque dá dinheiro. «Encontra um trabalho que seja um passatempo», dizia ele. Assim fiz. Agora não se venha queixar. Este texto está aparentemente non sense, mas faz todo o sentido. Sabem porquê? Primeiro, porque estou em fecho de edição e os raciocínios já não se articulam com coerência. Segundo, porque pretende traduzir em caracteres o género de conversa do meu pai. Ele é assim. E gosta de cozinhar. E cozinha lindamente. Logo podíamos ir jantar a qualquer sítio diferente. Sabem como é, desde que o Homem descobriu o fogo, a confecção de alimentos tornou-se essencial. Mas ainda comemos coisas cruas. Como o sushi. Sabiam que a civilização nipónica...

Pai, não te zangues, isto é só porque te adoro. Feliz dia!

segunda-feira, 17 de março de 2014

da fraqueza que é ceder

Porque é assim, diz ela enquanto fita o vizinho a regar as flores do canteiro, queixo apoiado na mão direita e semblante de menina que finge ser crescida. As coisas são como são. As estrelas não caem do céu, a comida não se faz sozinha e os passos levam-nos sempre a algum lado, continua. A divagação parece absurda, tão absurda quanto o momento que vive. As flores devem ser regadas à noite, sabias? Olha o viúvo que vive alguns andares abaixo, numa modesta vivenda à frente da sua casa, e continua: Não gosto de mim quando estou apaixonada. Não gosto. Por isso é que não me quero apaixonar. A brisa quente trouxe-lhe a reminiscência do calor que o outro corpo emanava, junto ao seu, quando se sentia embalar pela doce sonolência de quem está bem onde está. Acariciava-lhe os pêlos do peito, absorvia o cheiro bom da sua pele e assim trazia em si um pouco dele. Não é só medo nem é frieza da minha parte. É a certeza de que não posso nem quero voltar àquele estado em que te expões à vulnerabilidade, em que te tornas frágil. No fundo, é uma entrega sem pára-quedas, em que a viagem deixa saudades, mas a queda marca-te com cicatrizes muito feias. Passa um gato que mia, ouvem-se passos e dobra a esquina um casal de mãos dadas que ri. Não é para mim, aquilo. Não é para mim essa doçura enjoativa. Não quero voltar a ser a mulher exemplar, que cumpre os papéis de mãe, amiga, esposa, cozinheira, massagista, irmã, companheira, confidente, consultora de imagem, assistente, namorada. Não posso voltar a ser aquela pessoa dedicada, altruísta e que dá amor sem pedir quase nada em troca. O mundo é dos fortes.

Boa semana, meus amores!


sexta-feira, 14 de março de 2014

Bom fim-de-semana!

Milou Sluis
"Se não tivéssemos Inverno, a Primavera não seria tão agradável; se não experimentássemos algumas vezes o sabor da adversidade, a prosperidade não seria tão bem-vinda."
Anne Bradstreet

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ai.

Gisele
Podia não ser nada. Podia não ter sido nada. Quando digo que tudo pode mudar num instante, é mesmo disso que estou a falar. De quando poderia ter sido diferente. E tudo poderia ser diferente, se olharmos por cima do ombro. Há coisas assim, há momentos assim, em que queremos lá saber. E depois, depois logo se vê. Sempre fui uma dessas pessoas que acha graça ao perigo, que se ri do medo e que depois, se tiver que apanhar os cacos, ainda consegue sorrir porque valeu a pena. Acredito que é a dimensão superior da vida, onde nem todos chegam. A maioria da população mundial vive os seus dias uns depois dos outros, sem graça nenhuma. Cinzentos, arrastam-se para os trabalhos para ganhar dinheiro, comem para não morrer, bebem porque tem de ser ou para esquecer. Não há alma nenhuma, não há gozo nenhum, não há intensidade. Se por vezes me queixo do excesso de emoções com que a minha vida é bafejada, outras há em que tenho plena consciência de que se não fosse esta vitalidade toda, não seria quem sou. Não poderia escrever se não fosse abalroada pela experiência que é estar viva. Mais ou menos como quando somos enrolados por uma onda mais violenta, estar viva é o abraço, o beijo, a mão, o querer, o ter. É o sorriso parvo, o medo, a coragem. O cheiro, a pele e outra vez o sorriso.
Podia não ser nada. Podia não ter sido nada. Passamos uns pelos outros grunhindo um 'bom dia' qualquer, sem saber quem está por dentro do corpo. Somos todos mundos, somos todos almas e somos todos surpresas. Uns mais que outros, claro. Umas boas, outras más. Algumas, mais raras, excepcionais. Mas todos únicos, cheios de nuances e particularidades, com qualidades e defeitos, com virtudes admiráveis e um lado obscuro por desvendar. E depois de nos conhecermos, nunca mais nos veremos da mesma maneira.

quarta-feira, 12 de março de 2014

como lâminas de vidro

Leighton Meester
Sou transparente.
Quem me conhece sabe sempre se estou feliz ou embebida pela amargura da tristeza que só o irremediável traz. Se gosto de estar num sítio ou não. Se me estou a divertir ou a ser possuída pelo tédio. Se simpatizo com uma pessoa ou não. Se estou irritada ou não. Se estou nervosa. Se estou ansiosa. Como sou extremamente impaciente, é fácil que me vejam farta de alguma coisa - de esperar, de estar, de ouvir.
Sou transparente, tudo se nota em mim, ainda que tente disfarçar com o porte altivo e a postura blasé que também me caracterizam. Não tenho jeito para mentir, mas sou mestre na omissão. E então há alguém que me pergunta, no meio de uma noite que tinha tudo para esconder aquilo que não digo, porque estava tão misteriosa.
Sou transparente.

terça-feira, 11 de março de 2014

Confiar

Anja Rubik
Sou assim, extremamente desconfiada. Tenho grandes dificuldades em acreditar nas pessoas, em dar-me sem receios. Acho que tenho um distúrbio, um excesso de cinismo que me aproxima da paranóia e que me faz criar verdadeiras teorias da conspiração. Na verdade, acredito mesmo que a maior das teorias da conspiração é aquela que diz que não existem teorias da conspiração. Então dou por mim a fazer filmes do caraças, enredos mirabolantes em que a vítima - eu - está no centro de uma teia macabra. Tenho que fazer um esforço hercúleo para me refrear e abrandar essa ideia de que todo o mundo se une contra mim, num jogo de segredos cujo objectivo é colocar-me numa posição frágil. É que passamos a vida a ouvir dizer que os vilões não existem só nas novelas e uma pessoa depois fica neste estado. Ou então não, talvez seja fruto daquele trauma de infância que a psicóloga descobriu em mim, quando tinha 19 anos. Ou talvez seja apenas produto das sucessivas desilusões com que vou sendo confrontada. É, deve ser tudo isso. E depois paga o justo pelo pecador.

segunda-feira, 10 de março de 2014

dos Defeitos.

Brigitte Bardot
Oh os defeitos.
Tenho tantos.
Quando me perguntam quais são os piores, nunca sei o que dizer. Talvez porque alguns possam ser qualidades, consoante o contexto. Talvez a timidez me cale. Talvez não goste de mostrar o meu lado lunar. Mas ainda que me safe da revelação, a pergunta fica a ecoar cá dentro e as respostas surgem quando não consigo dormir e as estrelas me prendem o olhar. Assim de repente, de um modo superficial, encontrei uma dúzia de características que me irritam em mim.

#1 - Vaidade
Sou vaidosa, não gosto de sair de casa sem o cabelo impecável e a manicura intacta. Mesmo que seja apenas para ir ao supermercado, preciso de um toque de maquilhagem. Na verdade, isto só é um defeito porque se reflecte em atrasos constantes.

#2 - Irascibilidade
Sou irascível, irrito-me com facilidade se exposta à burrice crónica, à labreguice desmedida ou à pretensão. São coisas para as quais não tenho pachorra, o que não significa que faça cenas. Limito-me ao brusco afastamento da situação ou da pessoa que me provoca náuseas e ponto final.

#3 - Romantismo
Muita romântica. Adoro o amor, já houve quem dissesse que essa era a minha droga. Fico feliz com flores, olhares e muita lamechice. É uma merda desculpem lá mas não há qualquer outro adjectivo que se enquadre aqui tão bem e já nos damos há tempo suficiente para que não tenha que recorrer a eufemismos. Sou romântica e tento negá-lo diariamente para me proteger. Paradoxalmente, acredito que por ter uma história de amor mais dramática que as músicas da Adele suporto tudo, pelo que não me inibo - atiro-me para as histórias como se não houvesse amanhã. Com a maturidade (cof, cof) e com o calo que as dores do coração me criaram, aprendi a enganar-me. Repito cá para dentro que não volto a apaixonar-me até aos 35 anos, ainda que saiba que existem fortes probabilidades de vir a engolir essa falsa convicção.

#4 - Seriedade
Não me levo demasiado a sério, divirto-me imenso, mas às vezes sou demasiado séria, o que me torna um pouco intolerante à leviandade. Não consigo conceber uma existência sem a prática do bom carácter, dos princípios vincados, dos valores mais profundos e do discernimento apurado.

#5 - Complexidade
Tendo a complicar, ou seja: não chateio ninguém, mas penso demasiado em tudo. Meço todas as consequências dos meus actos para que, ao ser acusada de irresponsabilidade, possa justificá-la: fiz porque quis e não por não imaginar o que daí adviria. Não gosto de ser apanhada desprevenida.

#6 - Desconfiança
Não confio em ninguém a cem por cento. Não sou capaz. Preciso de provas constantes.

#7 - Assertividade
Sou de tal modo veemente que roço a agressividade. Não é por mal, só não sei manifestar ideias ou raciocínios sem convicção.

#8 - Preocupação
Não é comigo que me preocupo; é com os outros. Os que são importantes para mim. E estando de fora, tenho uma posição privilegiada, que me permite ver e saber o que é melhor para eles. Conclusão: acabo por ser chata, porque dou opiniões que nem sempre são agradáveis ao ouvido e quando não as aceitam, fico pior que estragada - não por não ter sido útil, mas pela sensação de impotência, já que não posso fazer nada para evitar que se magoem. O pior? Mais dia, menos dia, dão-me razão.

#9 - Aspiração
Sonhadora por natureza, não me chega o aqui e agora, por melhor que seja, por mais grata que me sinta por tudo o que tenho e vivo. Há sempre mais e melhor à minha espera.

#10 - Autoritarismo
Sou uma excelente líder, adoro mandar e acho que tenho sempre razão, porque na verdade, se não tiver certezas, não faço nem digo. Se estou a concretizar ou a afirmar alguma coisa, é porque sei. E se sei, está sabido, tenho razão. Se não souber, pergunto, não faço nem digo. Estamos entendidos?

#11 - Exigência 
Não peço mais do que sou capaz de dar. O problema é que sou capaz de dar muito, mais do que a maioria das pessoas. Talvez por isso seja tão exigente.

#12 - Melindrabilidade
Quem não se sente, não é filho de boa gente. Não é qualquer um que tem a capacidade de me magoar, mas todos aqueles que deixei entrar no meu coração podem fazê-lo sem querer. Quando gosto, tenho altas expectativas quanto ao comportamento do outro e nem sempre sou rápida a compreender que somos todos diferentes no trato e na demonstração de afecto.

Boa semana, meus amores!

Pumbas! Logo de manhã.

sexta-feira, 7 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014

pouco

Marisa Miller
Tenho tanto para dizer e tão pouco para escrever. 
Não ter sossego faz disto. É esta agitação constante, um ritmo frenético que não me é natural, taquicardia. Não ter tempo para o cansaço, ter sempre as mãos geladas e o cérebro a mil. É como se andasse sempre a correr e não pudesse parar para pensar nos passos que se atropelam. Não querer saber sabe bem. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

London calling.

Olivia Palermo
Vou-me embora amanhã. Vou a Londres. Quem sabe se não fico por lá. Se encontrar um gentleman e ele não puder vir comigo, volto no Verão para as praias do Algarve. Diz que eles gostam do Sul do nosso país, não é?
Vou amanhã e quando marquei a viagem, não poderia imaginar que precisaria tanto de me afastar da minha vida. De me reposicionar. De me reequilibrar. De me esquecer do que não vale a pena. Preciso de me centrar e vou para terras de Sua Majestade tentar fazê-lo. Vou passear. Vou andar, perder-me por ruas que não conheço, que aqui já está tudo visto. Ver rostos que nunca vi, que já não há cá nada de novo. Ver o céu de outro ponto do planeta, que daqui as estrelas estão sempre no mesmo sítio. Vou respirar.
E quando voltar, ainda que esteja tudo na mesma, como se nada se movimentasse por estes lados, pelo menos eu vou estar em mim. No sítio certo de mim.

Quem quiser acompanhar-me, pode sempre Instaseguir-me.

Bom fim-de-semana!

Cate Blanchett
"Almas gémeas. A minha geme e a outra não se acalma."
Rogério Viana

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dos saltos altos dela.

Barbara Palvin
Encontrei o blog por acaso, numa fase negra da minha vida, daquelas em que andamos com a cara encostada à lama do fundo do poço. Encontrei-a a ela também, a pessoa por detrás do blog. E se toda a blogosfera fosse má, valeria a pena por sua causa. Sabem aquelas pessoas de quem gostamos, a quem desejamos o melhor e a quem agradecemos profundamente por toda a paciência e generosidade? É ela. Não lhe escrevo longos e-mails há muito tempo, há tempo demais... mas o que interessa é que agora, ao que parece, tem uma novidade que agracia toda a gente. Basta que espreitem aqui.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O amor faz-se.

Megan Fox
O amor faz-se e não é de cama que estou a falar, que isto é um blog de respeito. O amor faz-se. Prova-se a ele mesmo nas atitudes que tomamos. Confirma-se pelas loucuras que fazemos. Mostra-se pela abnegação e revela-se no gesto. Materializa-se na renúncia. Amar não é algo estático. Não se sente e pronto. Não é uma palavra como «pedra», um simples substantivo dotado de significância exacta. É um verbo, implica acção. Ama-se continuadamente, como se respira. Ama-se sem ter necessidade de amar. Ama-se porque tem de ser. Como comer. Ama-se porque não se consegue bem-querer de outra forma. Ama-se sem escolha. Não escolhi amar. Se pudesse, se soubesse que consequências teria de suportar, escolhia nunca tê-lo sentido. Quando amamos de corpo e alma, somos acorrentados a alguém. Para sempre. Tenho para mim que amar é um destino, um fado. Um fardo que temos de suportar. Uma dor com que temos de aprender a atravessar os dias. Aprendemos a sorrir de coração apertado, a disfarçar as lágrimas com as gargalhadas. É tão quente, queima tanto, que aconchega. E sentimos que por mais que doa, a dor sabe bem. Não faz mal amar. Não faz mal que doa, é amor. Antes ser queimada por ele que corroída pelo ódio.
Pior que amar, é ser correspondido. São duas dores, dois destinos, dois fados. Dois seres obrigados a viver com a certeza de que existe ali algo que por mais que arda, não se consome. E depois é preciso coragem. É preciso dar as mãos e saltar. E cá entre nós, ainda não conheci ninguém que me surpreendesse por ser realmente corajoso.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Das dores que fazem bem

Toni Garrn 
É como se gostasse quando certas coisas me acontecem. Certas coisas fortes. Coisas que fariam sofrer qualquer mulher. Eu gosto, confesso. E não é masoquismo. É a certeza de que isso acontece para que me lembre de quem sou, do que quero, de onde venho e para onde vou. Quando me sinto fraca, então sou forte. E o mundo é dos fortes, certo? Então, sempre que algo me fere, me deixa gelada, com as mãos tão frias que mal as consigo mexer, com vómitos, os olhos húmidos, como se o sangue desaparecesse de dentro do meu corpo, lembro-me de mim. De como somos ilhas. Um de cada vez, solitários. Sós. E gosto dessa sensação. Gosto de saber que não dependo de ninguém e que ninguém depende de mim. Não há outro que possa viver a minha vida, sentir os meus sentimentos, vibrar com as minhas emoções. Não há quem imprima as minhas pegadas no caminho que é só meu. Gosto de me sentir senhora do meu nariz, sem fragilidades, sem vulnerabilidades. Só eu, com a minha personalidade bem vincada e o meu querer a guiar-me. Eu.

Boa semana, meus amores!

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Bom fim-de-semana!

Julia Stegner
"A vida nem sempre é como queremos ou esperamos, mas às vezes o inesperado torna-se essencial."
Nayana Zambonin

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

London calling. Colin.

Evan Rachel Wood
Ao pensar em Londres, há quem pense nisto, naquilo ou simplesmente nos mais óbvios elementos. Eu não. Eu penso que posso querer ficar lá para sempre se vir "o" British Gentleman. Ele.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

achei giro.

O pior cego é aquele que não quer ver

Barbara Palvin
Quando todas as evidências apontam para um problema grave, quando tudo demonstra que há algo de errado, há quem prefira ignorar. Há famílias que convivem bem com o facto de fingirem que não notam a presença do elefante na sala. É-lhes mais fácil deixar que uma situação se arraste e se intensifique do que aceitar o confronto, o rebentar da bomba, encarar a explosão. Os danos causados pela descoberta daquilo que preferem não ver parecem piores do que o acumular dos segredos de que não querem saber. Quanto a mim, não gosto de camuflar realidades. Gosto de tudo claro, luminoso e nítido, sem desfoques. Gosto que não seja preciso ler nas entrelinhas. Gosto de transparências.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

...detesto.

Lily Cole
«Ah e tal, nunca mais te vi.»
«Oh, nunca te vejo, não me convidas para um café...»
«Olha, vê lá se te lembras de me ligar!»
«Fogo, estás viva? Nem uma mensagem!»
«Não tens saudades minhas, se tivesses, telefonavas.»

Ah e tal, se fosses à merdinha? Não tens o meu número, queres ver?

É que não há pachorra para esta gente que morre de saudades nossas, que sente a nossa falta, que não pode viver sem nós, mas que não mexe os dedinhos para enviar uma mensagem e ainda cobra atenção.

Não volto a sentir que estou em falta com alguém. Querem ouvir a minha voz? Façam por isso.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A propósito do 14 de Fevereiro...

Drew Barrymore
O mais marcante Dia dos Namorados que vivi foi o primeiro que passei com namorado. Óbvio. Perdoem-me todos os outros, mas o primeiro foi mágico e inesquecível. Eu, que sempre achei a data uma piroseira, adorei. Pela primeira vez, fazia sentido comemorá-la, já que não se resumia à recepção de inúmeras cartas e bilhetinhos anónimos na escola. Toda eu era felicidade. Cedi ao romantismo pegajoso, deixei-me levar pelo cliché e confesso, fui feliz. Tão feliz. Demasiado feliz. Insuportavelmente feliz. Choviam estrelinhas à minha volta, o coração não cabia dentro do peito, a cabeça estava nas nuvens e todo o meu corpo era electricidade. Tinha 15 ou 16 anos, ele 21 ou 22. Era O Amor da Minha Vida, aquele que tinha feito nascer em mim o sentimento mais arrebatador e apaixonante que uma adolescente pode experienciar. Foi um daqueles amores que vemos nos filmes, que são como os raios, fulminantes e certeiros: nunca caem duas vezes no mesmo sítio (até que caiam). Às vezes, só às vezes, há em mim uma certa pena por saber que nunca mais me vou sentir plenamente embebida nesse melaço viciante. Já não vou querer agradar, surpreender ou fazer de um homem o mais feliz do mundo. O meu maior sonho era casar. Mas casar com ele. Não era apenas na festa, no vestido ou na expressão dele à minha espera no altar que pensava. Era nas banalidades do quotidiano. Queria, depois de um dia de trabalho, abrir-lhe a porta de nossa casa, bonita e arranjada, dizer-lhe que fosse relaxar na banheira já preparada para o receber, enquanto terminava o jantar que tinha estado a fazer para os dois. Queria ser a esposa que o mimava, que o adormecia com massagens e festinhas no cabelo. Queria ser a mulher que fazia uns petiscos para que ele e os amigos vissem o jogo em nossa casa enquanto eu ia às compras com a minha irmã. Queria ser a mãe dos filhos dele, a nora dos pais dele, a cunhada da irmã dele. Queria tudo, a vida toda, ser a fonte de felicidade e o porto de abrigo, numa dádiva contínua, num amor à antiga, incondicional, foleiro e um pouco machista, convenhamos.
Já não encontro em mim essa ingenuidade que permite a pureza da entrega total, inteira e inconsequente. Os anos tornam-nos exigentes, dotam-nos de um cinismo incontornável e a experiência ensina-nos a fazer uso de escudos e de muralhas para nos protegermos. É como se não houvesse tanto altruísmo nem tanta coragem e inconsciência para que nos atiremos, livres, respondendo ao sedutor apelo do abismo. Amei-o mais que a mim mesma numa relação tão doce como louca e violenta, tão áspera como aconchegante. Há quem passe a vida inteira à procura de algo assim. Há quem desapareça do planeta sem ter vivido algo assim.
Jantámos o nosso bife preferido no restaurante onde mais gostávamos de ir. Eu a princesa, ele o homem dos meus sonhos, alto, lindo e másculo. O meu Mr. Big, estão a ver? Nesse dia 14 de Fevereiro de há mais de dez anos, achei-o mais bonito do que sempre achara. Estava mesmo lindo, todo homenzinho, muito aprumado, o cabelo impecavelmente cortado, o blazer e o mocassin. Conversávamos imenso, ríamos ainda mais. E os olhares eram tão intensos que quando me tocava na mão podia senti-lo acariciar-me a alma. É que o tempo passava a correr quando estávamos juntos. Nessa noite, levou-me a Coimbra para tomar café. Podia apostar que a caminho ouvimos Wonderful Tonight, pelo Eric Clapton. Lembro-me como se tivesse sido ontem: fomos às Galerias, em Santa Clara, lugar que ainda tenho como especial. Claro que celebrámos o Dia de S. Valentim com os habituais presentes: ofereci-lhe um livro que sabia que ele queria - O Homem Que Mordeu o Cão, com CD ou DVD, já não me recordo... Por sua vez, ele ofereceu-me uma almofada vermelha, com um coração, só para me assustar. Depois estendeu-me flores e um embrulho - uns brincos que adorei e que guardo com carinho. Sabem, o importante não foram os presentes que trocámos, mas o facto de termos pensado no que o outro gostaria de receber. E de repente, estou a escrever-vos com um sorriso tão nostálgico que devia ir dizer-lhe o quanto me fez feliz, o quanto ainda me sinto feliz com a ternura do que vivemos.

Bom fim-de-semana!

Beyoncé
"O amor é algo eterno; o aspecto pode mudar, mas não a essência."
Vincent Van Gogh 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

E não era sexta-feira 13.

Lana Del Rey
O dia corria bem. Chovia a potes, o cabelo estava tão péssimo que mais valia apanhá-lo, o frio era tanto que atravessava as várias camadas de roupa que tentavam agasalhar o meu corpo carente de calor. Chovia de tal forma que decidi deixar o carro estacionado perto do meu local de trabalho, só para evitar andar a pé e à chuva toda uma absurda distância... é que esta cidade que me alberga é rica em estacionamentos pagos. E eu não gosto de pagar para deixar o carro na rua, que só por acaso, também é minha. Sou portuguesa, as ruas são espaços públicos, o carro é meu e eu deveria poder deixá-lo onde me apetecesse, desde que não obstruísse nenhuma via nem se tornasse num obstáculo para outros condutores ou peões. Mas não. Assim sendo, todos os dias é a mesma gaita - deixo o carro numa ponta da cidade para a atravessar a pé, só para não pôr moedinha no glutão do parquímetro. É que a rua onde trabalho fica numa zona de estacionamento proibido, inserida na mini zona histórica. A rua onde trabalho, apesar de ter sido submetida a um procedimento de regeneração urbana, continua feia que dói... mas a rua onde trabalho continua a ter espaço suficiente para que o meu carro não incomode ninguém e há que dizer: os senhores polícias não passam multas em dias de chuva, pelo que tenho aproveitado esta única vantagem que reconheci nestes dias horrorosos pouco solarengos. Estacionei a viatura de modo a que não perturbasse ninguém, deixei espaço livre para as entradas dos prédios ou lojas e fui trabalhar, coisa nobre. Passou cerca de uma hora até que o sol se decidisse a dar ares da sua graça. Daqui a nada, passa um senhor polícia, está-se mesmo a ver, pensei. Pouco tempo depois, lembrei-me de ir espreitar o carro. Bruxeee... pumbas! Multa. Fui logo pagá-la. Tau! Vinte euros. Sério? Antes não era nove e tal? Vinte euros? Vinte euros para o lixo? Podia ter sido uma mala da Primark, uma t-shirt da Zara, um colar da Parfois, mas não. Também não foi um jantarinho bom. Nem uma sabrina básica. Não. Foi deitar dinheiro para o lixo. Pois claro que fico chateada. E como se o dia estivesse a correr bem, ao chegar a casa projectei o meu rabo com toda a violência para cima do sofá. Por azar, os óculos estavam ali pousados. Parti-os. As duas hastes. Tenho que ir tirar o quebranto.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Stromae, o Maestro

Candice Swanepoel
Devem lembrar-se dele do tema Alors on Danse, que shame on me ainda ouço de cada vez que entro em Albufeira, toda eu sorrisos e alegria (o gajo tem piada, confiram aqui!).
Se não fosse a Mana Lamparina não o conheceria tão bem, já que ela acabou por se interessar pelo jovem belga, que nasceu no meu ano. Chama-se Paul Van Haver e é um génio. Passo a explicar: o que ele faz é simples, não é erudito nem dotado de uma complexidade evidente para o transformar num artista de elites, mas reconheço ali densidade e todo o trabalho é muito bem pensado, o que me parece ter mérito.
Tudo isto que vos digo pode ser condensado numa explicação como a seguinte: Filho de pai ruandense e de mãe belga, teve contacto com o pai apenas por três vezes... e para perceber a influência de todos estes factores naquilo que faz, basta estar atento a vídeos como o Papaoutai. Outro que me choca pelo encadeamento perfeito é este, em que a música ficou claramente a ganhar com o vídeo. Fiquei ansiosa para vê-lo ao vivo depois da Mana me ter mostrado esta actuação, que só pode ser compreendida depois de vistos os vídeos das músicas interpretadas - até nisto ele é exemplar.
Até aqui, só coisas boas: um artista de corpo e alma, com um corpo tão alto como fininho, que só não passa a estrela mundial ao nível de um Mika no seu auge (escolha de exemplo totalmente random) por cantar em francês. Mas há melhor. Os mais atentos sabem quão especial é para mim a Cesária. Então não preciso de dizer mais nada, pois não? Adorei.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pessoas

Nicole Ritchie
Gosto de conhecer pessoas. Por dentro, não para aumentar o número de amigos no facebook, mas para expandir o meu mundo, conhecendo outros. 
Gosto de me surpreender com os maneirismos próprios de cada um, com o fio condutor dos seus pensamentos, de perceber o que os faz agir desta ou daquela maneira. Gosto do olhar, da voz, do timbre infantil quando há sorriso ou da gravidade no tom quando o assunto é sério. Gosto de observar o todo que faz de um ser único. Os tiques, a perna que não pára de mexer debaixo da mesa, os dedos que não largam a asa da chávena de chá. Coisas superficiais como o cabelo. Coisas profundas como a dor. Gosto de conhecer pessoas centradas, sérias, equilibradas. Pessoas à antiga, que levam as relações a sério. Pessoas à frente, com horizontes alargados. Pessoas. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Dramas femininos.

Natasha Poly
Começo por lavar o rosto e passar o tónico. Depois o creme de olhos e o hidratante. De seguida, o primer. A seguir, a base. O corrector. A sombra mais clara. O eyeliner. A sombra mais escura. Uma intermédia. O lápis. Pó. Bronzer. Blush. Máscara de pestanas. E mais qualquer coisinha na sobrancelha ou algo para disfarçar uma ou outra imperfeição.
Finalizado o rosto, acabo de me vestir, calço-me e sigo caminho.
Quando regresso, sempre a mesma treta: desmaquilhante de olhos no disco de algodão, toalhitas, lavar o rosto, tonificar, hidratar, aplicar mais um ou outro creme e pensar que não valia a pena ter-me sujado tanto.