"- O importante é que tenhamos saúde e que estejamos juntos!"
Estou sempre a ouvir esta frase. Desde sempre. É o defeito dos clichés: o facto de se repetirem tanto torna-os ocos, ainda que sejam verdadeiros. Então habituamo-nos a ouvi-los, a concordar e seguir em frente, com a mesma leveza com que matamos um mosquito. Não lhes atribuímos grande valor porque não interessam, não trazem nada de novo e temos mais em que pensar. Sim, sim, a saúde é importante mas eu tenho mesmo é que terminar as compras de Natal, fritar os sonhos e as rabanadas, pôr a mesa da consoada, irritar-me com um trejeito mal interpretado e lamentar não ter conseguido fazer tudo a tempo e horas, que ainda por cima a vida não pára só porque o Pai Natal vai chegar e há sempre imprevistos e milhares de tarefas a cumprir. A saúde é importante mas o carro que nunca mais sai da oficina é que me está a maçar, a falta que faz, é um suplício viver sem ele. E ainda nem fiz todos os telefonemas nem respondi aos e-mails que tenho por ler.
Até hoje.
Este ano, essa frase dita com uma certa leviandade bateu-me forte cá dentro. Este ano percebi que as velhinhas têm razão quando me dizem que o importante é que tenhamos saúde. Mas só me apercebi disso porque faltou saúde a alguém próximo de mim.
Passei a consoada preocupada com a minha avó, que não acordava há tempo demais. Nem para comer, nem para tomar a medicação. Nada. Não acordava e vive a 150 quilómetros de mim. Fui sabendo como estava por telefone. No dia seguinte, lá decidiu acordar.
Lembrei-me da minha prima Belita várias vezes, cujo marido está num estado delicado há semanas.
E foi durante o almoço de Natal que soube que
o Ricardo tinha morrido. Não quero usar eufemismos, não gosto dos termos «falecer» ou «partir». Morreu. E soube-o assim mesmo: "O Ricardo já morreu".
Nesse instante, entre o espanto e o nó na garganta, com os olhos a humedecer, percebi que a Vida corre como tem de correr, não interessa o que façamos para tentar alterar o seu rumo. Ela segue, independentemente do que desejemos. Deus quer e não há como contornar a Sua vontade. Não há como fugir, não há esforços que ultrapassem o que tem de ser. É a nudez do mistério da fatalidade.
Ainda não tinha aqui contado que graças aos donativos angariados, o Ricardo pôde deslocar-se à Alemanha. Aproveito para agradecer... Obrigada a todos os que tiveram conhecimento deste caso através do lamparina e que aumentaram em nós a esperança de que ele superasse o cancro, partilhando, rezando ou fazendo uma contribuição.
Ao chegar, o Ricardo foi examinado e rapidamente informado de que não valia sequer a pena tentar. A minha prima Marta foi com ele, um amigo ofereceu-lhe a viagem. O Ricardo não resistiu e morreu antes de voltar para Portugal.
E eu só espero que Deus aqueça o coração dela e que não deixe doer demais, se é que isso é possível. Estou triste, como é óbvio. Mas mais que isso, tenho o coração apertado por saber que a minha prima ainda não está aqui, com a mãe.