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| Rachel Weisz |
"- Não sei se não ficámos sem carro", dizia. Eu colava o telemóvel ao rosto, tentava falar sem que se notasse o choro e o medo deste lado.
O meu pai tinha adormecido ao volante. Despistou-se. Ele, que tantas vezes me contou que o cansaço o levara a parar o carro em qualquer lado para dormir um bocadinho e depois continuar a viagem.
A minha carrinha estava no arranjo desde a semana anterior, pelo que me senti impotente -
chamo um táxi e vou ter com ele? Vou a pé? Vou demorar horrores se for a pé.
É que às duas e meia da tarde, enquanto eu arrumava a louça, toda a gente estaria a trabalhar. Vesti qualquer coisa e saí. Afinal o mecânico já tinha deixado a minha carrinha em frente ao consultório -
Obrigada, Deus.
No caminho, antecipava o cenário sem uma lágrima, que nos momentos de crise o sangue gela-me e sou incapaz de ficar quieta no meu lamento. Quando cheguei, olhei incrédula e vi um enorme aparato: o nosso carro ali, completamente destroçado. Já não consegui conter as lágrimas. A alegria de ver o meu pai de pé, intacto.
Liguei os quatro piscas, puxei o travão de mão, desliguei o carro. Lembro-me com tanta precisão de cada um destes passos e sem grande nitidez de todo o dia. Saio, quero lá saber do colete reflector, atravesso o IC8 e vou ter com ele à outra berma. Finalmente o abraço - Ainda bem que estás bem, pai!
Ver o nosso carro ali, destruído mas com o habitáculo inteiro -
Obrigada, Deus.
O nosso carro ali, encravado num sinal de indicação "Expocentro, Osso da Baleia" que servira de travão para que o acidente não fosse pior -
Obrigada, Deus.
"- Mas porque é que a menina não pára de chorar?" - perguntava o agente da GNR.
Não respondi.
"- Foi só chapa! Ninguém se magoou!"
Continuei muda. Os retrovisores partidos, os airbags expostos, os pneus com buracos, bocados de carro pelo chão, a porta amolgada, vidros partidos, cacos... -
E se tivesse sido com a minha carrinha? E se tivesse sido pior? E agora? Vamos ficar sem carro? Vamos ter que gastar dinheiro com isto? Quanto dinheiro?
O nosso carro, pá. Uma pessoa sente falta dele. A nossa família sente a falta dele. O carro não serve só para fazer as viagens mais longas em segurança, o carro é um instrumento de trabalho para o meu pai. E as viagens que tinha planeadas? E o aniversário da mãe, como vai ser? E... e quando chegámos ao mecânico, ele dirigiu o olhar para o carro em cima do reboque para depois me fitar com uma certa condescendência e dizer:
"- Meu amor, foste tu que fizeste isto?"
Ainda bem que não fui eu, ou o pai matava-me.
E fiquei mais calma à noite, depois de saber que temos seguro contra todos os riscos. É só um incómodo. Foi só mais uma chatice no meio de tantas outras. E estamos todos vivos.