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| Amanda Seyfried |
O caso foi simples: um rapaz da minha idade decidiu fazer greve de fome até conseguir um emprego ou falar com o Primeiro-Ministro. Como já disse, acreditava estar a comentar no mural da minha tia P., daí o linguajar impróprio:
"Então, pois! Em vez de mexer este rabinho gostoso e procurar trabalho como deve ser, não. Faço birra e greve de fome até alguém me fazer a vontade. -.- Don't like."
O que fui fazer! Como ousei manifestar uma opinião neste país livre e democrático? Às tantas já tinha uma fulana a dizer-me coisas como "Não sabia que abanar e mexer o rabo dava trabalho como deve ser". Mesmo sabendo que tal comentário era desprovido de grande nível, que a pontuação estava errada (eu corrigi para postar no lamparina) e que a única resposta válida seria qualquer coisa como "Com o teu rabo, não... mas com o meu, aposto que sim!", decidi responder com alguma condescendência e educação, comme il faut:
"Ahahahahah Há, de facto, quem encontre trabalhos assim. Não é o meu caso, que sou um bocado esquisita quanto ao tipo de emprego que procuro. No entanto, como é óbvio, referia-me à procura de trabalho que implica bater em muitas portas, palmilhar alguns quilómetros, receber muitas respostas negativas e não desistir. Era de empregos que tenho como sérios que falava. Compreendo o desespero, infelizmente pertenço à geração que paga por erros que não cometeu. A grande maioria dos meus amigos, tal como eu, encontra-se numa situação vergonhosamente precária, independentemente das licenciaturas, mestrados ou doutoramentos que tenham. Contudo, não acredito em birras. Só isso."
Não sei porque raio perdi tempo. Só expresso a minha opinião sobre assuntos sérios quando estou com pessoas que para além de inteligentes e open minded, me conhecem minimamente bem. É que tenho sempre opiniões controversas, ainda que muito bem fundamentadas. Normalmente, não digo coisas da boca para fora e há sempre raciocínios (coisa rara nestes dias) por detrás de uma frase. Muitas vezes, falo com base na minha experiência pessoal, ou na de quem me é próximo.
Sem saber nada disto, sem saber quem eu sou, que dias vivo, que dificuldades atravesso, que problemas teve a minha família que resolver ou que obstáculos encravam o quotidiano dos meus amigos, tenho uma gaja qualquer a dizer-me que não sei do que estou a falar. Sem saber que caminho trilhei, se fui ou não explorada, que exemplos tive, quantos amigos meus se foram embora porque isto aqui não está a dar. Sem saber que uma deixou cá os filhos, que outra deixou o marido, que os outros ficaram os dois no desemprego e sem direito a subsídio, com uma criança na escola e uma casa para pagar, que a minha tia foi despedida com 50 anos e que a estabilidade é para mim uma coisa longínqua, apesar de já ter 27 anos. Sem saber que por culpa de um Estado que não quer saber da providência, a minha mãe teve que deixar a filha com dez anos de idade para ir trabalhar a 400 quilómetros de casa, sem ter ideia do dinheiro que roubam aos meus pais, que são os dois funcionários públicos. Sem saber que passado da minha família lutadora está inscrito nas minhas impressões digitais, ela diz-me: "Birra? Oxalá não tenha nunca de fazer uma birra assim, por estes e outros motivos. Mas se tiver de ser, escreva comentários como estes, pois, sem dúvida, dão nas vistas. Talvez a contratem para um cargo implacável, tipo despedir gente birrenta"...
Seriously?
Sabem, faria uma greve de fome se por falta de dinheiro recusassem os tratamentos a alguém com cancro. Para lutar contra o desemprego, talvez fosse limpar escadas, mas não ia passar fome. Isso é o que quero evitar, que ter um trabalho serve para não passar fome. Era mais ou menos isto que queria dizer.
Não encontrar um emprego na minha área de formação é triste, é revoltante, é intolerável, é frustrante e injusto, mas não se resolve com uma greve de fome. Resolve-se com uma alternativa. Com um trabalho que não seja exactamente aquilo com que sonhei e para o qual me tenha preparado com anos de estudo e propinas.
Espero que ele encontre um emprego. A sério que sim. Ele e todos nós, que estamos à espera desse Euromilhões que é um emprego que não seja uma merda precária. Mas sabem do que é que eu gostava mesmo? Que em vez de ficar ali sentadinho, ele se juntasse a mais malta desiludida e furiosa com o estado a que chegámos, como eu e mais uma centena de pessoas que conheço, e entrasse pelo Parlamento adentro. Às vezes acho que isto já não vai lá com manifestações, protestos, greves e afins. Isso é para meninos. Quem está no poder sem noção de serviço público precisa de sentir que não estamos a gostar da porcaria que andam a fazer. E a linguagem tem que mudar.
Mas o âmago da questão deste post não é esse. Queria só partilhar convosco o meu desagrado quanto a esta falta de civismo que povoa a Internet em geral. A protecção de que o teclado e o monitor dotam os utilizadores permite-lhes ser ordinários como não conseguem ser lá fora. Nem todo o site é bem frequentado como o Lamparina, infelizmente.
Desculpem a seca, o lamparina não quer ser um espaço cinzento, grave e sério, onde se debate a actualidade catastrófica do nosso Portugal. Quero que venham cá e esqueçam tudo, que é para isso que eu uso este espaço. Além disso, da última vez que escrevi sobre assuntos do género, fiz uma úlcera na córnea e não quero repetir a graça... Mas não posso deixar de vos mostrar esta notícia. Desta quase gostei (mesmo sendo do ano passado, como a F. me alertou!).







































