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| Jennifer Aniston |
"Tu não controlas nada", gritou ele. Ela ainda atarantada, as lágrimas espalhando os restos do rímel pelo rosto, espalhando a dor na expressão desesperada de quem só quer desaparecer.
As coisas que se dizem a quente magoam tanto, meu Deus. Por mais que se use como desculpa a velha teoria de que a irritação gera frases em que não acreditamos, eu tenho a sensação de que a raiva abre o coração para que a boca diga aquilo que se esconde. E se num momento de fúria se diz algo bruto, é porque em algum momento já o sentimos como verdade. Talvez por isso não esqueça.
Não gosto de discussões. Não gosto de gritos. Não gosto de insultos.
Não gosto quando deixa de haver respeito.
Não gosto quando se perdem os limites.
Quando me chateio, quando me irrito, quando me zango, não perco a cabeça. Não saio do que me é legítimo. Não me é possível tratar alguém a quem devo respeito como se fosse um cão vadio. Não agarro pelos colarinhos as pessoas com quem tenho laços profundos.
E dou por mim confrontada com aquela realidade que já devia ter reconhecido há muito tempo, tanto tempo quanto os meus anos de vida pensante: a hipocrisia não subsiste. Não há como esconder de todo o mundo, durante todo o tempo, a ausência de carácter. Que ter carácter não é apenas seguir padrões perante os outros ou ser íntegro para os que vêem de fora. Não chega apregoar. "Pelos frutos os conhecereis." Ter carácter é manter a firmeza mesmo em situações limite. É não renunciar ao que sabemos ser correcto. É ser eu mesma, custe o que custar. É saber quem sou e ser fiel ao que sei ser.
Sabem, o respeito caiu em desuso. Ninguém percebe que respeitar não se restringe apenas a uma qualquer cordialidade no trato. Respeito mesmo que não ame. Respeito quando defendo quem ousa tecer algum comentário impróprio sobre a pessoa em questão. Respeito quando não concordo mas ouço antes de acusar. Respeito quando concordo em discordar e não torno a levantar a polémica. Respeito quando não me faço valer de um qualquer poder para reduzir o outro a nada. Respeito quando não tomo como dado adquirido uma mera conjectura.
Há quem julgue que o dinheiro compra lealdade mesmo que não seja leal.
Quem não duvide que o dinheiro compra o poder de decisão e de opinião dos outros.
Quem acredite que o dinheiro compra respeito mesmo quando não respeita.
Deus, às vezes não sei porque me puseste aqui. Não sei porque me fizeste sã, educada, consciente. Não sei porque me criaste desprovida de medo.
Não imaginam como dói ser vista através de uma lente errada. Ser vista como uma pessoa que não sou eu. Ser uma desconhecida para quem me deu o ser. Há quem ouça apenas o que quer ouvir, quem interprete as minhas palavras e as minhas acções segundo a sua própria maneira de ser, quem só ouça a sua própria voz. Talvez por isso a discussão seja sempre a mesma.
E quando não se dão ao trabalho de ouvir atentando, que me resta fazer?