quinta-feira, 17 de maio de 2018

temos mesmo que aproveitar esta breve passagem por aqui

O meu amigo perdeu o pai. E eu chorei, porque saber que ele está triste faz nascer tristeza em mim. Dói-me saber que o meu amigo está a passar por essa dor. Custa-me, fico com um nó gigantesco na garganta a condicionar a minha voz, sempre tão decidida, hoje tão sumida. O meu amigo perdeu o pai e eu já lhe disse que não há muito para dizer - estou aqui. E não chega, não chega nada porque esta merda da morte deixa-nos com espaços vazios. Nós só nos habituamos a algumas ausências, nunca mais voltamos a ser quem fomos antes de nos serem arrancados de nós os que amamos. 

Sabem quando somos pequeninos e temos aquele medo terrível de que os nossos pais morram? Eu ainda tenho esse medo. Não contenho as lágrimas quando penso nessa possibilidade - não é uma possibilidade, é uma certeza, tão absoluta quanto o nascimento. Porque é que não é tão natural morrer como nascer? Porque é que em tantos anos de existência neste planeta ainda não aprendemos a lidar com isto? É a saudade, são os bancos vazios, é o lugar à mesa, a tosse que já não vamos ouvir, o riso, o calor das mãos, o aconchego do abraço, a reciprocidade do olhar. É tudo isso e o que não sabemos. Tudo isso e o que não dizemos. É a música que nos cantaram em pequenos ou a piada sem graça nenhuma. É o vento fresco no rosto e o cheiro do prato preferido. O horizonte. Nada. 

A minha amiga perdeu o avô. E eu fiquei sem palavras. Doeu-me a dor dela e doeu-me lembrar de que já não tenho nenhum avô, nenhuma avó. Estamos crescidos, os mais velhos estão cada vez mais velhos e começam a morrer, é mesmo assim. E ainda que saibamos de tudo isso como sabemos a tabuada do cinco, continuamos a sentir o coração ser cortado quando sabermos que a alma do outro, aquele que amamos e tantas vezes sem o dizer, abandonou o seu corpo. A matéria deixou de funcionar, a máquina parou. E aquele sopro já não está lá. Libertou-se.

Vi um homem morrer, uma vez. Já vi muitas pessoas sem vida mas nunca tinha visto ninguém morrer. Solucei. Não o conhecia. Morreu na estrada, a poucos metros do meu carro. Caiu, simplesmente. E eu vi-o morrer. Não há dia nem noite em que passe naquele lugar e não me lembre dele. Nestas coisas não há estratificação social, poder económico nem nível académico. Há humanidade. Só. Um de nós deixou de viver. Um da minha espécie partiu. É assunto meu, também. E chorei a sua morte, sozinha no carro, com um desespero incontrolável, como se tivesse privado com ele. Porque senti - tudo em mim sentiu - a libertação da sua alma daquele cárcere carnal. E é um momento tão poderoso. Tão impressionante.

Morte. Vida. Tempo. Amor. Abraço. Olhar.

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